
(Sérgio Carvalho) – Sete luzes para quarenta dias e uma chama que vence a noite.
O Cemitério do Prado do Repouso estava silencioso como poucas zonas do Porto conseguem estar. As árvores altas filtravam a luz, e as campas antigas pareciam guardar histórias que ninguém já contava. Samuel caminhava devagar, acompanhado pela avó, para o funeral distante de um conhecido da família.
Enquanto o padre proclamava o Evangelho de Lázaro, Samuel pensava naquela frase que lhe ficara presa desde o início da Quaresma: “Lázaro, vem para fora!”
Jesus não fala para o vazio. Chama alguém concreto. Pelo nome.
Samuel afastou-se um pouco, leu datas gravadas na pedra, nomes esquecidos. Pensou em quantas partes da sua vida estavam adormecidas: a oração, a coragem, a atenção aos outros. Sentiu um aperto no peito — não de medo, mas de apelo.
Imaginou a menorah mais uma vez. A quinta chama acendeu-se com intensidade. Não era uma luz suave. Era uma luz que incomodava, que pedia resposta.
Ali, no meio dos túmulos, Samuel percebeu algo essencial: Deus não chama os perfeitos. Chama os vivos. Mesmo quando estão presos por faixas invisíveis.
Saiu do cemitério em silêncio, mas com uma decisão clara: não queria continuar a viver pela metade.


