
(Sérgio Carvalho) – Sete luzes para quarenta dias e uma chama que vence a noite.
Os Jardins do Palácio de Cristal estavam cheios de gente naquele domingo. Crianças a correr, turistas a tirar fotografias, casais sentados nos muros a olhar o rio. Samuel caminhava devagar, com as mãos nos bolsos, a cabeça cheia.
Na escola, o teste de Matemática tinha corrido mal. Sabia que muitos tinham copiado. Ele não. Agora vinha a dúvida: valera a pena? Jesus no deserto surgia-lhe no pensamento — não como imagem distante, mas como alguém que também tivera de escolher sem ninguém a aplaudir.
Sentou-se num banco virado para o Douro. O vento mexia as copas das árvores. Pensou que o deserto não é ausência de pessoas, mas ausência de certezas. É o lugar onde ninguém decide por nós.
Imaginou novamente a menorah. Desta vez, viu uma pequena chama lateral acender-se. Não iluminava tudo. Mas iluminava o suficiente para dar o próximo passo.
Quando recebeu o teste corrigido, a nota não foi brilhante. Mas o professor olhou-o com respeito. Samuel percebeu: perder pontos não é perder dignidade.
O deserto tinha passado por ele — e ele não tinha fugido.


