(Pe. Luís Castro, Vigário-Geral da SM Boa Nova) – No itinerário rumo ao seu centenário, a SMBN tem buscado orientação nas Bem-aventuranças. No presente ano, estamos a ser guiados pela quarta Bem-aventurança: “Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados”. Pedimos ao padre Luís Castro, biblista, Vigário-Geral dos Missionários da Boa Nova, que nos ajudasse a compreender melhor o significado bíblico de ter fome e sede de justiça.

Caro leitor, detemo-nos, este mês, a refletir sobre a Bem-aventurança, que ocupa o quarto lugar no elenco das felicitações de Jesus. As primeiras oito formam um conjunto compacto (vv.3-10), o que é indicado pela mesma motivação (“porque deles é o reino dos céus”), que une a primeira e a oitava. Este elenco de oito bem aventuranças, pode ainda, com base em alguns indícios literários, ser agrupado em dois quadros paralelos com as bem-aventuranças a corresponderem-se como segue:
No caso concreto da quarta e da oitava bem-aventuranças, elas têm em comum a palavra “justiça”.
Tanto a palavra “justiça” como o adjetivo “justo” ou o verbo correspondente são termos muito importantes no Evangelho segundo Mateus: “justiça” aparece um total de sete vezes (Mt 3,15; 5,6.10.20; 6,1.33; 21,32); “justo” encontra-se 17 vezes (Mt 1,19; 5,45; 9,13; 10,41[3x]; 13,17.43.49; 20,4; 23,28.29.35[2x]; 25,37.46; 27,19); o verbo “justificar” duas vezes (Mt 11,19; 12,37). Percorrendo estas passagens, o que de imediato se pode concluir é que para Mateus a justiça não deve ser entendida como no quadro das virtudes cardeais (prudência, justiça, fortaleza e temperança), enquanto virtude específica nas relações interpessoais. Também é de excluir um valor económico (enquanto distribuição justa dos bens) ou jurídica (cumprimento das leis ou reparação do pelo incumprimento das mesmas).
Na primeira vez em que recorre à palavra “justiça”, Jesus insiste com João Batista, que se recusa em batizá-lo, para que cumpra, juntamente com ele, “toda a justiça” (cf. Mt 3, 15), o que aqui equivale a fazer a vontade de Deus. O mesmo significado aplica-se a Mt 6,1.33. Essa justiça, que corresponde à vontade de Deus, comporta um duplo aspeto, pois é ao mesmo tempo um atributo de Deus e a expressão da sua vontade salvífica, mas também uma tarefa e uma exigência para os homens. Enquanto atribuída a Deus, a justiça está unida à misericórdia (cf. Mt 9,13; 12,7). Já para o discípulo, viver a justiça significa assumir um comportamento misericordioso (Cf. Mt 5,22-24; 18,15-17.21-35).
A expressão “fome e sede” é uma maneira bíblica para indicar a pessoa na sua totalidade e indicar inteireza do seu desejo e da sua aspiração. A escolha dos termos nesta bem-aventurança remete para o Salmo 107,5-9:
5 Famintos e sedentos,
a sua alma neles desfalecia.
6 E clamaram ao SENHOR na sua angústia,
e os livrou das suas dificuldades.
7 E conduziu-os pelo caminho direito,
para que fossem à cidade em que habitassem.
8 Rendam graças ao SENHOR pela sua bondade
e pelas suas maravilhas para com os filhos dos homens!
9 Pois saciou a alma sedenta
e encheu de bens a alma faminta.
Assim, aqueles que têm fome e sede de justiça são pessoas que, em primeiro lugar, buscam o Reino de Deus, procurando viver uma relação com Deus e com os outros caracterizada pelo amor, pela misericórdia (cf. Is 53,11; Sl 17,15). É desta “justiça” que se trata. Tendo em conta as atuais relações de poder entre as pessoas e os povos, este objetivo parece utópico, mas Jesus promete saciar esses famintos e sedentos. O desejo profundo que habita o coração do homem é falsamente desejo de poder, desejo de juntar para si. O profundo anseio que habita o coração do homem é desejo de Deus, do seu conhecimento, da contemplação do seu rosto. Podemos dizê-lo com Santo Agostinho: “Criaste-nos para Vós, Senhor, e o nosso coração está inquieto enquanto não descansar em Vós» (Confissões, I, 1, 1).
Os oprimidos, os famintos e os sedentos clamam a Deus e experimentam que é Ele quem sacia a garganta sedenta e enche de bens os famintos (cf. Sl 107,9). A mesma promessa de que deixará de haver fome e sede encontra-se também em Is 49,10; 55,1-2. No Magnificat, Maria canta: “aos famintos encheu de bens” (Lc 1,53). No Evangelho de João, Jesus promete: “Eu sou o pão da vida; quem vem a mim nunca mais terá fome, e quem acredita em mim nunca mais terá sede” (Jo 6,35). No Apocalipse – com base em Is 49,10 – lê-se o seguinte: “Nunca mais terão fome, nunca mais terão sede” (Ap 7,16). Este contexto deixa claro que a saciedade da fome e da sede de justiça se refere ao cumprimento do Reino dos Céus. Como isto ainda não se realizou plenamente, continua a haver fome e sede de justiça, mas os famintos e sedentos podem estar certos de que serão saciados pelo próprio Deus.


