Carta com sabor a testamento

(Pe. Augusto Farias, Administrador da Boa Nova) – São muitas as cartas que nos chegam. Graças a Deus! Mas algumas vêm carregadas de vida, de paixão e de entrega até ao fim. Precisamos de as conhecer porque são para todos nós um incentivo e estímulo.

À semelhança da D. Ilda Honório, são inúmeras as pessoas, amigos e amigas, auxiliares das missões, benfeitores, que verdadeiramente se sentem e que efetivamente fazem parte da Família Boa Nova estendendo as mãos e o coração para cooperar com os Missionários da Boa Nova. A todos(as), de coração, o nosso muito obrigado!
Foto: SM Boa Nova

Em meados de setembro, recebemos uma dessas cartas que merecia ser encaixilhada e colocada nas nossas salas de visitas. D. Ilda Honório está num Lar de Idosos em Turquel, já com noventas e muitos anos, e quase invisual. Mas ainda escreveu, pelo seu próprio punho, uma longa carta carregada de vida e de memórias. Começa por dar contas da administração do seu trabalho missionário. Depois passa para o resumo da sua ligação com a Sociedade Missionária.

“Na Quaresma de 1977 o Sr. P. Domingos Carvalho, que estava no Seminário de Tomar, veio fazer uma pregação e eu apresentei-me, e ele ficou muito surpreendido, porque não imaginava uma Auxiliar das Missões em Turquel. Depois veio a minha casa várias vezes. Deixava-me postais, marcadores, livros. Vendi muito às funcionárias do Centro Paroquial, e através delas a familiares e amigos… Se consultarem os arquivos a partir de 1977, encontram muitas faturas que eu paguei, entre elas estão muitas inscrições na Pia União de Missas. O P. Domingos tinha muita devoção a Nossa Senhora, Maria Auxiliadora, e ofereceu-me uma linda imagem, um bocadinho maior que um postal. Tenho-a num livro que uso todas as manhãs, tendo escrito uma citação do evangelho: Lc 2, 19. Tinha na altura 50 anos. Foi talvez a última vez que me visitou”.

A partir daí começou uma relação muito familiar com os Missionários da Boa Nova que ela relata até ao pormenor. “Fiz alguns retiros em Fátima, no seminário de São Francisco Xavier e lá encontrei de novo o P. Domingos nas confissões. Conheci a Ir. Diamantina, a Ir. Neves e a Ir. São nos retiros em Fátima. Não me lembro do ano em que fui a primeira vez à festa missionária. Era Superior Geral o Sr. P. Castro Afonso que me impôs o emblema de Auxiliar das Missões. No ano seguinte fui outra vez e estavam expostas as fotografias do ano anterior. O P. Januário tirou uma fotografia que me ofereceu. Foi no seu aniversário de bodas de Prata em Romariz, sua terra natal. Conheci o P. Januário quando fiz o primeiro retiro em Fátima”.

Relata a seguir a grande crise por que passou com o aparecimento do primeiro cancro e recorda a grande proximidade do P. Januário nessa situação. “Fui à ordenação episcopal de D. António Couto. Nunca tinha assistido a essa celebração. Gostei muito… fiquei duas noites no seminário”. A partir do ano 2000 começou a ser visitada pelo Ir. Celso, relata mais adiante, que todos os anos passava por sua casa a levar calendários e almanaques.

Ultimamente foi a vinda do P. Amaro. “Apanhou-me de surpresa. Telefonou-me a dizer que dentro de dez minutos estava em minha casa. Eu tinha acabado de chegar do IPO de Lisboa. O P. Amaro disse-me que queria visitar-me e falar comigo. Tinha 93 anos e três cancros, e não fico nada surpreendida se vier outro…”.

“Esta é a minha última contribuição como Auxiliar das Missões. Continuo a considerar-me membro da Família Boa Nova, mas agora apenas pela oração e sofrimento. Agradeço a todos a ajuda que me deram…”. A sua tarefa missionária não acabou. Continua a oferecer-se em holocausto pela Igreja, pelo mundo e pela Sociedade Missionária. Continua a ser um dos membros mais valiosos da nossa Família Boa Nova. Vamos tê-la muito presente na nossa oração porque é um dos membros mais qualificados da nossa grande família.