Convivência Inter-religiosa e Missão

(Pe. Tiago Tomás, Missionário da SMBN no Japão) – À luz da declaração Nostra Aetate (Concílio Vaticano II) sobre a Igreja e as Religiões Não-Cristãs, que nos convida a reconhecer nos caminhos da fé um terreno fértil para o encontro e a paz, partilho o testemunho de Taeaki Kataoka, uma monja budista da tradição Jōdo Shinshū, nascida no silêncio de um templo japonês no mesmo dia em que a terra tremeu sob o Grande Terramoto de Hanshin-Awaji (Kobe). A sua vida, marcada por uma escuta atenta ao sofrimento humano e por uma entrega serena à missão de semear compaixão, leva-nos a percorrer sendas onde o Dharma (ensinamentos budistas) floresce em gestos de arte, palavra e presença junto dos mais esquecidos. Nesta conversa, fala-nos da fé como resposta ao desconhecido, da interdependência como chave para a paz, e da dádiva como ponte entre tradições. O seu olhar, moldado por outra linguagem espiritual, toca o nosso com uma delicadeza que não impõe, mas ilumina. Num mundo ferido por divisões, este diálogo é como água clara que corre entre margens distintas, revelando que, mesmo com raízes diferentes, há flores que só desabrocham quando cultivadas em conjunto.

Para Taeaki Kataoka, os religiosos devem “não apenas transmitir os ensinamentos divinos como meras informações, mas aceitar profundamente essa salvação e mostrar, com a própria vida, a existência de uma paz que transcende a razão”. Foto: LUSA

Considera que a religião pode desempenhar um papel positivo na felicidade e estabilidade da sociedade? Em caso afirmativo, de que forma acredita que pode contribuir?

Antes de mais, o que significa “felicidade e estabilidade na sociedade”? Se definirmos este conceito como um estado em que as pessoas vivem com uma “sensação de segurança que não exige justificações”, então acredito que sim, a religião pode desempenhar um papel fundamental. Vivemos num mundo onde não sabemos o que acontecerá dentro de segundos, onde até o fim do mundo amanhã é uma possibilidade real. Ainda assim, conseguimos fazer planos para a próxima semana como se fosse natural. Viver o presente com essa tranquilidade — penso que apenas a religião é capaz de criar um mundo assim. Isto porque o que nos permite superar o medo do desconhecido não é a previsão lógica, mas sim a “fé” — algo que transcende a razão. Fome, conflitos, pobreza — são frequentemente apontados como causas da instabilidade e infelicidade social. No entanto, talvez a raiz de tudo isso esteja no “medo infundado do futuro”.

“Não sei o que acontecerá amanhã.” Perante esse desconhecido, tendemos a temer que algo nos seja tirado. Tentamos controlar o futuro que, na verdade, nos é dado, tentando forçá-lo a caber nos limites do que já conhecemos. Essa distorção é o que gera a ansiedade e os atritos sociais. Para nos resgatar desse “medo sem fundamento”, é necessário um tipo de segurança que vá além da lógica — uma confiança absoluta, uma aceitação incondicional. Não se trata de transformar o amanhã num objeto explicável por teorias ou dados, como uma previsão meteorológica, mas sim de demonstrar, com a própria postura de quem acredita firmemente que “vai correr tudo bem”, a existência dessa tranquilidade que transcende as palavras. A felicidade e a estabilidade são como a luz. Não conseguimos vê-la diretamente, mas é através das coisas que ela ilumina que percebemos a sua presença.

Na minha terra natal, viveu no final do período Edo um devoto chamado Shōmatsu-san, conhecido como myōkōnin (uma pessoa de fé profunda), que deixou várias histórias memoráveis. Conta-se que, certa vez, o barco em que ele viajava foi apanhado por uma tempestade. O mar estava revolto, e o barco podia afundar a qualquer momento. Os marinheiros lutavam desesperadamente para controlar o leme, e os passageiros rezavam em pânico aos deuses e budas. No entanto, em meio ao caos, havia uma pessoa deitada tranquilamente a dormir — era Shōmatsu-san. Um dos passageiros, indignado, gritou: “Como é que consegue dormir numa situação destas?” Ao que ele respondeu calmamente: “Onde quer que eu esteja, estou sob o olhar de Amida.” Estas palavras expressam de forma simples e profunda a confiança absoluta na salvação de Amida Buda — uma paz inabalável, independentemente das circunstâncias. Acredito que os que estavam presentes naquele momento sentiram, mais do que qualquer explicação lógica sobre a estrutura do barco ou a sua segurança, a existência real da “felicidade e estabilidade” através da serenidade inquestionável de Shōmatsu-san. É precisamente esse o papel que nós, religiosos, devemos almejar: não apenas transmitir os ensinamentos divinos como meras informações, mas sim aceitar profundamente essa salvação e mostrar, com a nossa própria vida iluminada, a existência de uma paz que transcende a razão. Essa, acredito eu, é a nossa missão e a forma como podemos contribuir para a felicidade e estabilidade da sociedade.

Gostaríamos de saber mais sobre o budismo. Qual o seu ensinamento central e o que é que mais valoriza nele? Em particular, gostaríamos de ouvir a  perspetiva e os ensinamentos  do budismo sobre a paz.

O ensinamento que mais valorizo é, sem dúvida, o conceito de engui — a interdependência ou originação dependente. Este princípio ensina que todos os fenómenos surgem apenas quando há uma combinação entre uma causa direta (in) e as condições ou circunstâncias que a favorecem (en), resultando assim num efeito (ka). Tal como uma semente (in) não floresce por si só, sendo necessário que o solo, a água e a luz do sol (en) estejam presentes para que a flor (ka) desabroche — é a importância da harmonia entre causas e condições. O ponto essencial deste ensinamento é o reconhecimento de que as “condições” (en) não estão sob o nosso controlo. Podemos escolher semear uma semente, mas não podemos obrigar o sol a brilhar sobre ela — isso está além da nossa vontade. Contudo, muitas vezes deixamo-nos dominar pela arrogância de pensar: “Fui eu que semeei, por isso a flor tem de nascer.” E quando isso não acontece como esperávamos, culpamos o “sol que não brilhou”, ou seja, projetamos a culpa nos outros. Por isso, é fundamental que voltemos a reconhecer corretamente a existência e o papel das condições. Se a semente que lançámos deu flor, foi porque, por acaso, o sol — que não existe para o nosso benefício — também iluminou a nossa semente. Perceber que isso não é “óbvio”, mas sim algo “precioso” (no sentido literal de “difícil de acontecer”), leva-nos a cultivar gratidão em vez de frustração. E quando compreendemos isso, a tendência para nos zangarmos com os outros ou para gerar conflitos diminui naturalmente.

Há ainda outro aspeto importante na lógica de causa e efeito: É a ideia de que “aceitar o resultado presente pode transformar o significado da causa passada”. Tendemos a ver o presente como uma nova causa para semear o futuro — o que é, sem dúvida, valioso. Mas, ao mesmo tempo, o presente é também o fruto de sementes lançadas no passado. Se conseguirmos acolher o presente como um “resultado feliz”, então, mesmo que o caminho até aqui tenha sido marcado por dor, sofrimento ou conflito, poderemos dizer: “Foi graças àquela experiência que cheguei até aqui.” E assim, tornamo-nos capazes de aceitar e até perdoar o passado. Somos seres que não conseguem viver sem cometer erros, que nascem com emoções que podem gerar conflito. Por isso mesmo, acredito que caminhar com um coração capaz de se alegrar com o presente e perdoar o passado é o verdadeiro caminho para a paz.

Houve algum ensinamento ou atitude que a tenha marcado particularmente no contacto próximo com cristãos até agora? Se houver pontos que considere comuns ao budismo, gostaríamos que nos explicasse.

O que mais me impressionou nos encontros que tive com pessoas que vivem a fé cristã foi a “profunda confiança no ser humano”. Senti, em todos eles, uma forte convicção de que, mesmo reconhecendo plenamente a tolice e a fragilidade humanas, continuam a acreditar firmemente que “é possível viver em comunhão uns com os outros”. Essa postura deixou-me uma impressão muito viva, pois transmite uma atmosfera algo diferente daquela que se vive no budismo, especialmente na tradição da Escola da Terra Pura (Jōdo Shinshū), à qual pertenço. No budismo, e em particular na Jōdo Shinshū, há uma tendência para encarar o ser humano como um bonbu — um ser comum, repleto de desejos e ilusões, essencialmente tolo e imperfeito. Por isso, a abordagem cristã, que procura confiar e acreditar no ser humano de forma afirmativa, foi para mim algo novo e refrescante.

Contudo, embora os pontos de partida sejam diferentes, sinto que o destino visado — “viver em comunhão” — é comum a ambas as tradições, e há muitos ensinamentos que se sobrepõem. Por exemplo, a frase cristã “é mais feliz quem dá do que quem recebe” ressoa profundamente com o espírito budista do fuse — a prática da dádiva. No budismo, fuse é o ato de oferecer aos outros, seja bens materiais, ensinamentos ou conforto espiritual, sem esperar nada em troca. Mas para que essa ação seja verdadeiramente considerada um fuse, há uma condição essencial: a pureza das “três rodas” (sanrin shōjō), ou seja, libertar-se do apego à ideia de “eu dei”, “dei a alguém” e “dei tal coisa”. Quando damos algo a alguém e nos sentimos genuinamente gratos por essa pessoa ter aceite a nossa oferta, é então que o fuse se realiza plenamente. Sinto que este espírito está profundamente alinhado com o ensinamento cristão de que “dar é, em si, uma bênção”. O facto de estas duas grandes tradições — o cristianismo e o budismo — seguirem caminhos distintos e, ainda assim, alcançarem um entendimento comum, parece-me uma poderosa indicação de que existe um horizonte partilhado que toda a humanidade pode e deve almejar, para além das fronteiras religiosas e culturais.

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