
(Manuel Vilas Boas) – No passado mês de maio, Leão XIV completou o primeiro aniversário da sua eleição como Bispo de Roma e Pastor Universal da Igreja Católica. Desde o início, tem revelado uma preocupação constante pela paz, unidade e missão, num mundo fragmentado e dilacerado por conflitos. O atual Papa, “filho de Santo Agostinho”, bispo missionário, cidadão norte-americano e peruano, pouco a pouco, tem-se revelado ao mundo como um homem sereno e humilde, mas simultaneamente firme e destemido na defesa dos mais pobres e vulneráveis perante a prepotência dos poderosos deste mundo. Pedimos a Manuel Vilas Boas, jornalista e missionário, que nos ajudasse a olhar para o primeiro ano do ministério petrino de Leão XIV.
Estola larga, rigorosamente clássica, e a mozeta vermelha frustram quem estava atento aos sinais de fumo a saírem da Capela Sistina, na tarde de 8 de maio de 2025.
Habituados ao estilo “livre” do Papa Francisco — lê-se, na sua biografia, que rejeitou até os sapatos encarnados que lhe queriam calçar — o novo Pontífice aparecia como uma figura romana e conservadora.
A primeira saudação foi feita na varanda central da Basílica de São Pedro. O texto inicial foi formalmente lido em italiano e espanhol. A voz era menos grave, o rosto fechado e o olhar firme, distanciando-se, claramente, de Francisco. A timidez tê-lo-á acompanhado no confronto com os holofotes e com a multidão intensa, em clamor, na Praça de São Pedro.
Leão XIV tinha 69 anos. Nascido em Chicago, era o primeiro chefe da Igreja Católica norte-americano.
O PERFIL PERFEITO
Depois de se ter lido a biografia de Leão XIV, escrita pela vaticanista Elise Allen, não se pode deixar de concluir que Robert Prévost — o “Padre Bob” — tinha o perfil exato para suceder ao “irreverente” Papa Francisco, uma espécie de “elefante numa loja de porcelanas”.
Antes, porém, de olharmos o novo Pontífice americano, visitemos o denso património que Prévost tinha auferido na vintena de anos como missionário no Peru, bispo de Chiclayo, Prior Geral dos Agostinianos e Prefeito do Dicastério para os Bispos, no Vaticano. Feito Cardeal por Francisco para participar num provável conclave, o Papa argentino foi marcando o seu olho clínico sobre Robert Prévost, que tinha acoplado ao ADN americano a nova identidade de cidadão peruano.
Quando o Papa Francisco procurava alguém para colocar na calha do conclave, já o espectro da morte o perseguia. Algumas das suas “sementes de revolução” poderiam continuar a reformar uma Igreja, agora “sinodal e em saída”, extraída da sua pastoral criativa e inspirada no Concílio Vaticano II, realizado entre 1962 e 1965.
A proximidade física da Ordem Agostiniana, paredes-meias com o antigo edifício do Santo Ofício, no Vaticano, permitiu a Francisco conhecer a espiritualidade, travejada pelo génio de Agostinho, bispo de Hipona, no Norte de África.
UM PAPA CEREBRAL
Leão XIV colou-se, neste primeiro ano, como inquilino da Santa Sé, a um silêncio progressivo. Contraditoriamente, valeu-lhe o ruído do Jubileu da Esperança que animou os seus primeiros meses à frente da Barca de Pedro. O Papa Leão fez questão de não imitar a personalidade do Papa argentino. Prévost viu uma Igreja em decadência moral e próxima do cisma. Perante esta transição difícil, só um Papa cerebral, amigo das ciências matemáticas e dotado de um conhecimento profundo da lei fundamental da Igreja, poderia impor o seu carisma imenso, vestido de tranquilidade.
Ao temperamento impulsivo e emotivo de Francisco, sucede, assim, a serenidade pacífica de Prévost. Quem ganhará com esta personalidade será o campo missionário que sempre deu corpo ao manifesto. No norte do Peru, onde a fé se misturava com a pobreza, as imagens “românticas” de Prévost, nas águas enlameadas ou a dar comida a crianças desnutridas revelam a essência deste missionário que leva a sério a Missão a que foi chamado.


