Moçambique: Bispos condenam ataques terroristas em Cabo Delgado e elogiam “perseverança na fé” dos fiéis

(Paulo Aido) – A Conferência Episcopal de Moçambique publicou ontem, dia 13, uma Nota Pastoral em que manifesta “profunda solidariedade” para com a Diocese de Pemba, palco, a 30 de Abril, de um violento ataque terrorista que reduziu a escombros a missão católica de São Luis de Monfort. Os Bispos condenam todas as formas de extremismo, exigem acção ao governo e deixam um elogio “ao testemunho vivo do Evangelho” por parte das comunidades cristãs que muito têm sofrido ao longo dos últimos anos.

“Uma igreja destruída é uma ferida aberta no coração do povo; um templo profanado é um atentado contra a dignidade humana e contra o direito fundamental à liberdade religiosa”, lê-se na mensagem da Conferência Episcopal de Moçambique [CEM], publicada ontem, dia 13, em resposta ao ataque terrorista de 30 de Abril, em que a missão católica de São Luis de Monfort, na Diocese de Pemba, foi reduzida a escombros, como a Fundação AIS noticiou.

A Nota Pastoral “de repúdio aos ataques contra as comunidades cristãs e de solidariedade com a Província de Cabo Delgado”, é uma tomada de posição robusta por parte da Igreja Católica numa altura em que se avolumam notícias de movimentação de grupos armados na região norte de Moçambique, nomeadamente no distrito de Chiúre.

Condenamos com veemência todas as formas de extremismo violento e de manipulação das populações, especialmente dos jovens, adolescentes e crianças – em nome de interesses religiosos, económicos, ambições de poder e exploração das riquezas naturais.”
Mensagem dos prelados da CEM, assinada por D. Inácio Saure

Os bispos alertam que os ataques terroristas contra as comunidades cristãs contrariam séculos de convivência pacífica entre fiéis de diferentes religiões em Moçambique“A história de Moçambique foi sempre marcada pela convivência pacífica entre povos, culturas e religiões. Em muitas das nossas famílias, cristãos, muçulmanos e seguidores das religiões tradicionais africanas cresceram juntos, partilhando a mesma mesa, os momentos de alegria e de luto, auxiliando-se e respeitando-se mutuamente”, afirmam os bispos, rejeitando “firmemente toda a tentativa de semear divisão, ódio e desconfiança entre irmãos da mesma pátria”.

“Quem destrói uma igreja ataca inocentes”

Na Nota Pastoral, os Bispos dizem ainda que nenhuma convicção religiosa vale mais do que a vida humana, e lembram que “quem destrói uma igreja ou outro lugar de culto ataca inocentes e não serve a Deus, pelo contrário, fere a humanidade”.

No documento, os Bispos pedem às autoridades para agirem em defesa das populações que desde 2017 têm sofrido com a violência terrorista no norte de Moçambique. “Lembramos que é dever fundamental do Governo garantir a dignidade humana, a segurança e o bem-estar de todos, protegendo a vida e o património nacional, aspectos que estão a ser gravemente postos em causa em Cabo Delgado, com evidentes sinais do seu alastramento ao resto do país (até ao momento presente pelo menos à região Norte)”, pode ler-se na Nota Pastoral, em que se fala reiteradamente em “intolerância religiosa” e em “ódio contra os cristãos”.

A Nota Pastoral, que termina com um pedido para que Nossa Senhora de Fátima, Rainha da Paz, “interceda” pelo povo moçambicano, em especial “os irmãos e irmãs de Cabo Delgado”, é também um profundo elogio público à coragem dos cristãos que têm vivido atormentados, ao longo dos últimos nove anos, pelos constantes ataques dos terroristas que reclamam pertencer ao grupo jihadista Estado Islâmico.

“A vossa perseverança na fé, no meio de tanto sofrimento, é um testemunho vivo do Evangelho e um sinal luminoso para toda a Igreja em Moçambique”, dizem os bispos da Conferência Episcopal de Moçambique.

A solidariedade da comunidade islâmica

Esta Nota Pastoral surge precisamente uma semana depois de a comunidade islâmica de Moçambique [CIMO] ter publicado um comunicado em que condenou o ataque terrorista à missão católica de São Luis de Monfort, manifestando, como a Fundação AIS noticiou“a sua profunda preocupação” pelo que está a acontecer na província de Cabo Delgado. No comunicado, a CIMO condenou “de forma firme e inequívoca todos os actos de violência perpetrados contra populações civis, bem como a destruição de espaços religiosos, independentemente da sua filiação confessional”, e exprimiu também a sua “solidariedade para com a comunidade católica e todas as famílias afectadas”.

No texto, os responsáveis da CIMO reiteraram que “nenhuma fé deve ser utilizada como justificação para a violência, o medo ou a divisão entre os muçulmanos”, e que os princípios do Islão levam a que tenham de rejeitar “qualquer tentativa de instrumentalização da religião para fins de violência ou terror”.

Pouco depois de ter conhecido este comunicado, D. António Juliasse, Bispo de Pemba, afirmava na página oficial da diocese, que esta tomada de posição por parte dos líderes da comunidade muçulmana era “um sinal de esperança” e símbolo da “fraternidade humana que o Papa Francisco nos ensinou”. O prelado recordou que “a Sagrada Escritura ensina-nos que Deus é Amor; [e que] devemos, portanto, amar Deus que nos criou e amar os nossos irmãos sem qualquer distinção”. E referiu-se mesmo aos responsáveis da CIMO como “irmãos”, agradecendo-lhes a mensagem, pois “ajuda-nos a distinguir, na prática, a religião islâmica daqueles que subtilmente querem se servir dela, radicalizando-a e espalhando mensagens de ódio, morte e destruição”.

A concluir, D. António Juliasse pediu que, em conjunto, se denuncie “a tentativa de instrumentalização da sagrada religião islâmica ‘para fins de violência e terror’”.