Moçambique: O objetivo dos terroristas “é construir um califado”, diz Bispo de Pemba à Fundação AIS

(Paulo Aido) – D. António Juliasse afirma que os terroristas que actuam em Moçambique pretendem fazer um califado na região de Cabo Delgado. “Os sinais existem”, diz o Bispo de Pemba. Mas o que preocupa mais o prelado é mesmo o “discurso de ódio” dos jihadistas, pois “a religião começa a dividir as pessoas”. Tudo isto deve inquietar as autoridades “antes que seja tarde de mais”, garante D. Juliasse num importante depoimento à Fundação AIS.

Foto: Diocese de Pemba

Os sinais existem. Eles falam de califado. Quando encontram pessoas, quando capturam, raptam pessoas, eles fazem esse discurso de que já estão aqui com o califado estabelecido.
D. António Juliasse, Bispo de Pemba

Praticamente um mês após o brutal ataque que reduziu, a 30 de Abril, a escombros, a missão católica de São Luis de Montfort, com a igreja datada de 1946 a ser queimada, num cenário de terror que incluiu ainda a destruição da escola primária e do posto de saúde, além do rapto de alguns populares, D. António Juliasse afirma estar preocupado com o discurso do ódio dos terroristas que têm vindo a actuar na região de Cabo Delgado, no norte de Moçambique.

“O que me preocupa”, diz o prelado, “é o discurso de ódio que acompanha toda esta acção”, salientando a forma como a religião tem vindo a ser usada como instrumento para a radicalização da sociedade. “A religião, que durante muito tempo facilitou a convivência entre as pessoas, começa a ter dificuldades. A religião começa a dividir as pessoas”, explica o Bispo de Pemba.

“Nas aldeias, antigamente aqui em Cabo Delgado, os cristãos participavam nos funerais de famílias muçulmanas, e os muçulmanos participavam nos funerais das famílias cristãs. Hoje, isto começa a ser questionado. E não é por causa dos cristãos. Então, o que é que está a acontecer?”, pergunta o responsável pela Diocese de Pemba. “Este é um assunto que deve preocupar as forças que governam o país, que deve preocupar também todas as forças vivas da sociedade, antes que seja tarde demais…”

“O silêncio é sempre perigoso”

Não se falar deste assunto é que não é correcto. O silêncio é sempre perigoso. Ninguém consegue ler o silêncio. O silêncio pode ser de precaução, pode ser também um silêncio de conivência, pode ser simplesmente um silêncio de desinteresse”, diz D. Juliasse, acrescentando que a falta de debate amplo sobre o terrorismo “é difícil de ser lido e cria uma grande confusão”.

“Por isso, eu tenho dito que há sempre necessidade de se fazer um discurso, de enfrentar a situação. Não sei qual é a dificuldade de se enfrentar isto para orientar as pessoas, para [dizer] onde é que nós vamos, o que está a ser feito, o que nós esperamos, o que nós devemos fazer todos juntos como povo moçambicano, o que nós temos de discutir neste momento, como um povo, todos nós… Eu não vejo isto bem tratado, devidamente tratado”, adverte.

Solução militar não é a única via

O Bispo de Pemba lembra que, no entanto, “a Igreja tem feito a sua parte”“Recentemente, a Igreja Católica emitiu uma Nota Pastoral protestando contra o estado de coisas que se vive aqui em Cabo Delgado, mas também mostrando alguns caminhos”, diz D. Juliasse. Neste importante depoimento à Fundação AIS, o Bispo reafirma que a solução do problema do terrorismo não pode ser vista exclusivamente na perspectiva militar. “Penso que o caminho do enfrentamento por via militar não é o único. É preciso encontrar vários outros caminhos e também o caminho que Moçambique já conhece, que é o caminho do diálogo. O povo moçambicano precisa de dialogar para que esta guerra termine”, explica D. António Juliasse.

O prelado lembra, no entanto, que é preciso haver coragem para se enfrentar a questão do terrorismo até porque nas fileiras dos grupos armados estão também moçambicanos. “Os que estão do lado daqueles que combatem, do lado da floresta, são moçambicanos, são filhos desta terra, boa parte deles. Pode ser que haja um ou outro que seja estrangeiro, mas é preciso dialogar, tem de haver coragem de enfrentar isso”, acrescenta, reforçando a importância do diálogo.

Nove anos de sofrimento

O Diálogo é importante, diz ainda D. António Juliasse, porque “esta guerra”, como o terrorismo é referido também em Moçambique, que é um dos países mais pobres do mundo, já causou mais de 6300 mortos e mais de 1 milhão de deslocados desde Outubro de 2017.

“Quando o terrorismo estiver fora da agenda, é muito difícil percebermos como é que esta situação está a ser enfrentada. Nós vamos completar, este ano, nove anos de sofrimento, de deslocados internos, de mortes aqui nesta província. Portanto, é uma situação que nos causa muita dor, muito desconforto, mas não percamos a esperança”, conclui.

País prioritário para a Fundação AIS

O Bispo de Pemba tem sido, ao longo destes anos, o principal porta-voz do sofrimento do povo de Cabo Delgado. Em Dezembro passado, quando o Cardeal Pietro Parolin esteve na Diocese em representação do Papa Leão XIV, D. António Juliasse fez-lhe um balanço do que tinha sido, até então, a violência jihadista no território, lembrando ao secretário de Estado do Vaticano que “mais de 300 católicos”, entre catequistas, animadores paroquiais e fiéis, já tinham sido assassinados, “a maioria por decapitação”, e já tinham sido destruídas 117 igrejas e capelas, das quais 23 apenas durante o ano de 2025.

Na ocasião, o Cardeal Parolin escutou de viva-voz testemunhos de pessoas que sofreram na pele o terror dos homens armados que reivindicam pertencer à organização jihadista Estado Islâmico. Moçambique é um país prioritário para a Fundação AIS, que tem apoiado a Igreja local a vários níveis, não só com ajuda humanitária, mas também promovendo apoio psicossocial e a reconstrução de infraestruturas.