NOVOS TEMPOS | Porto, Ermesinde, Fátima e Balazar: geografia portuguesa do Sagrado Coração

(Sérgio Carvalho) – No coração da espiritualidade católica existe uma devoção profundamente humana e profundamente divina: o culto ao Sagrado Coração de Jesus. Mais do que uma imagem piedosa ou uma tradição do mês de junho, esta devoção revela o próprio centro do Evangelho: Deus ama a humanidade com um amor concreto, misericordioso, reparador e apaixonado. A Solenidade do Sagrado Coração de Jesus celebra-se sempre na sexta-feira da semana seguinte à Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo (Corpo de Deus), ou seja, 70 dias após a Páscoa.

Ao longo dos séculos, a Igreja foi aprofundando esta espiritualidade através de santos, místicos e acontecimentos que ajudaram a compreender que o Coração de Cristo continua a pulsar pela humanidade ferida. Em Portugal, essa mensagem ganhou uma força especial através de três grandes referências espirituais: a Beata Maria do Divino Coração (Maria Droste zu Vischering), as aparições de Fátima e a Beata Alexandrina de Balazar.

O culto ao Sagrado Coração nasce da contemplação do lado aberto de Cristo na Cruz. O Evangelho de São João descreve o momento em que do lado de Jesus “brotou sangue e água”, sinal dos sacramentos, da Igreja e do amor total de Deus. A partir daí, muitos santos desenvolveram esta espiritualidade, mas foi com Santa Margarida Maria Alacoque, no século XVII, que o mundo recebeu os conhecidos apelos do Coração de Jesus: oração, reparação, comunhão e confiança na misericórdia divina.

O Sagrado Coração apresenta-se como resposta ao drama do pecado, da indiferença e da frieza espiritual. Não é uma devoção sentimentalista. É um convite à conversão do coração humano.

Foi precisamente neste horizonte que surgiu a figura da Beata Maria do Divino Coração, conhecida como Maria Droste. Religiosa do Instituto do Bom Pastor, viveu no Convento do Bom Pastor, no Porto, e tornou-se uma das grandes apóstolas do Sagrado Coração. Foi ela quem escreveu ao Papa Leão XIII pedindo a consagração do mundo ao Coração de Jesus. O Papa acolheu esse pedido e, em 1899, realizou aquilo que chamou “o ato mais importante do meu pontificado”: a consagração do mundo ao Sagrado Coração.

A ligação entre o Porto e esta espiritualidade é, por isso, única. Maria Droste compreendeu que o Coração de Cristo não queria apenas devoções privadas, mas uma renovação espiritual da sociedade, das famílias e das nações. A sua vida de sofrimento oferecido, oração e confiança tornou-se um testemunho vivo de reparação e entrega.

Hoje, as relíquias da Beata Maria do Divino Coração encontram-se na Igreja do Bom Pastor, em Ermesinde, tornando este templo um importante local de peregrinação e oração ligado ao culto do Sagrado Coração de Jesus em Portugal. Muitos fiéis continuam ali a procurar silêncio, esperança e renovação interior, junto daquela que ajudou a colocar o mundo sob a proteção do Coração de Cristo.

Anos mais tarde, em Fátima, a mensagem do Céu voltaria a insistir na mesma direção espiritual. Embora as aparições estejam fortemente ligadas ao Imaculado Coração de Maria, Fátima conduz inevitavelmente ao Coração de Jesus. Nossa Senhora aparece como caminho que leva os homens ao amor divino e à conversão.

As referências à reparação dos pecados, à adoração eucarística, à oração pelos pecadores e à consagração mostram uma profunda sintonia com a espiritualidade do Sagrado Coração. O Anjo de Portugal ensinou aos pastorinhos uma oração de reparação diante da Eucaristia, preparando-os para uma espiritualidade centrada no amor ofendido de Deus.

Em Fátima, o Coração de Maria surge unido ao Coração de Jesus. Não existem em concorrência, mas em comunhão. O coração da Mãe conduz ao coração do Filho. Por isso, Francisco Marto tinha uma especial devoção a “consolar Jesus escondido”, expressão profundamente ligada à espiritualidade reparadora do Sagrado Coração.

Também a Beata Alexandrina de Balazar se torna uma figura decisiva nesta linha espiritual. Natural de Balazar, na Póvoa de Varzim, Alexandrina viveu unida à paixão de Cristo através do sofrimento oferecido pela conversão do mundo. A sua espiritualidade estava profundamente marcada pela reparação, pela Eucaristia e pela entrega total ao Coração de Jesus.

Foi igualmente através dela que Portugal se consagrou ao Imaculado Coração de Maria nos tempos dramáticos da Segunda Guerra Mundial. Na vida de Alexandrina encontramos novamente esta união entre os dois corações: o de Jesus e o de Maria. O sofrimento humano, quando unido ao amor de Cristo, transforma-se em caminho de redenção e esperança.

Hoje, num mundo marcado pela solidão, pela violência verbal, pela fragmentação das relações e pela indiferença religiosa, o culto ao Sagrado Coração continua extraordinariamente atual. O coração humano permanece inquieto e sedento de amor verdadeiro. Talvez seja a razão por que o Sagrado Coração de Jesus continua a ser uma das imagens mais poderosas da fé cristã: um coração aberto, ferido e luminoso, que ama sem excluir ninguém. Em Fátima, em Ermesinde junto de Maria Droste ou em Balazar com Alexandrina, a mensagem é a mesma: Deus não desiste da humanidade.

Aqui nasce o maior desafio contemporâneo: voltar a ter coração. Assumir uma espiritualidade menos superficial, mais compassiva, mais reparadora e mais próxima dos que sofrem. Porque o culto ao Sagrado Coração não termina numa imagem exposta numa parede. Começa quando o cristão decide amar como Cristo amou.