Resposta para a Nova (des)Ordem Mundial

(Guilherme d’Oliveira Martins, Administrador Executivo da Fundação Calouste Gulbenkian) – A atual situação mundial está ensombrada por grandes desafios, como as inúmeras guerras,  a desigualdade e a pobreza, as migrações em massa, a crise ecológica, a crise do multilateralismo e o enfraquecimento das instituições de governação global. Os acontecimentos sucedem-se a uma velocidade estonteante, concorrendo para o que podemos denominar de “Nova (Des)Ordem Mundial”. Olhando para o atual cenário mundial, quais as possíveis saídas para a humanidade e para a nossa casa comum? E qual poderá ser o papel da Igreja e dos cristãos, dos crentes e de todas as pessoas de boa vontade face aos grandes desafios que vivemos, de modo a contribuir para a sua resolução? Partindo do Magistério dos últimos Papas e da Doutrina Social da Igreja, assente na igual dignidade de cada ser humano, na justiça e na equidade, Guilherme d’Oliveira Martins ensaia uma resposta.

Guilherme d’Oliveira Martins, personalidade portuguesa com uma diversificada ação e intervenção cívica e cultural. Foto: Fundação Calouste Gulbenkian

Perante a situação de (des)ordem internacional que se vive, importa tirar consequências. Regressa, com especial premência, a situação que levou o Papa S. João XXIII, na Encíclica Pacem in Terris, a apelar a uma profunda reforma das instituições internacionais no sentido da paz e da responsabilidade. Ao invés de uma perspetiva transacional que parece fazer o seu curso, importa mudar de atitude. Nestes termos, o Papa Leão XIV apela na Mensagem do Dia da Paz de 2026 a um especial envolvimento dos diversos poderes em presença, convidando a humanidade a rejeitar a lógica da violência e da guerra, para abraçar uma paz autêntica, fundada no amor e na justiça. Mais do que acordos precários, torna-se urgente criar condições para uma paz duradoura, que possa permitir que haja condições fundamentais de justiça, pondo termo a uma onda de ódio e de violência, que cada vez mais causa muitas vítimas civis, em especial muitas crianças inocentes e indefesas.  Por isso, o Sumo Pontífice diz que essa paz deve ser “desarmada”, ou seja, não pode ser baseada no medo, na ameaça ou nas armas; por outro lado, deve ser também “desarmante”, porque capaz “de dissolver conflitos, abrir corações e gerar confiança, empatia e esperança”. Não basta, assim, invocar a paz, é preciso encarná-la num estilo de vida que rejeite toda a forma de violência, visível ou estrutural. O Papa recorda, por isso, a saudação de Cristo Ressuscitado, “A paz esteja convosco” (cf. Jo 20,19) como um convite dirigido a todos – crentes, não crentes, responsáveis políticos e cidadãos – para edificar o Reino de Deus.

De facto, a cultura da paz obriga a termos presente quer o compromisso com a Natureza e o nosso Planeta ameaçado, quer a atenção e o cuidado para com os nossos irmãos vítimas de injustiça e de violência ou de indiferença. Os acordos de Gaza exigem ainda muito da comunidade internacional e dos cidadãos. Do mesmo modo, a persistência das dramáticas condições que rodeiam a guerra da Ucrânia obriga a um empenhamento para que seja posto termo à espiral de violência que continua a suceder. De facto, não basta a boa intenção de desejar a celebração de acordos puramente formais sem consequências práticas. Económica e financeiramente, o mercado negro das armas e a lógica transacional não nos conduz por bons caminhos. Contudo, é necessário conceber, acreditar e agir de forma que o efeito positivo dos esforços sérios se torne possível no sentido de alcançar os objetivos defendidos pelo Papa Leão XIV. Como calar as armas? Como afirmar os princípios de direito internacional, fazendo-os respeitar? Como conseguir uma paz desarmada e desarmante? As condições concretas não se alcançam espontaneamente. Só um equilíbrio de poderes permite a dissuasão, que tem faltado, e que tem de ir além da perspetiva de mero negócio.                                                       

Há momentos na História em que a afirmação dos princípios é mais importante do que as vitórias circunstanciais, que apenas podem fragilizar esses valores. O tempo confirmará o bem fundado da justiça. O mesmo se diga relativamente aos discursos negacionistas e à tentativa de iludir as consequências da destruição da natureza, do aquecimento global e das desigualdades, bem como à recusa de se ver que a ciência não pode ser esquecida. Recordemos as palavras do Papa Francisco em Laudato Si’: “Precisamos duma política que pense com visão ampla e leve por diante uma reformulação integral, abrangendo num diálogo interdisciplinar os vários aspetos da crise. Muitas vezes, a própria política é responsável pelo seu descrédito, devido à corrupção e à falta de boas políticas públicas. Se o Estado não cumpre o seu papel numa região, alguns grupos económicos podem-se apresentar como benfeitores e apropriar-se do poder real, sentindo-se autorizados a não observar certas normas até se chegar às diferentes formas de criminalidade organizada, tráfico de pessoas, narcotráfico e violência muito difícil de erradicar. Se a política não é capaz de romper essa lógica perversa e se perde em discursos inconsistentes, continuaremos sem enfrentar os grandes problemas da humanidade. Uma estratégia de mudança real exige repensar a totalidade dos processos e estruturas, pois não basta incluir considerações ecológicas superficiais enquanto não se puser em discussão a lógica subjacente à cultura atual. Uma política sã deveria ser capaz de assumir este desafio”.

A Exortação Apostólica Dilexi te, do Papa Leão XIV, “constitui um documento de grande relevância, sobretudo para o momento atual, uma vez que põe a tónica no reconhecimento do outro como complemento de nós mesmos, com especial relevância para os pobres. E nota-se uma especial preocupação em encontrar novas pistas no sentido de ligar a luta contra a pobreza e a provação com o desenvolvimento humano e a busca da universal dignidade da pessoa humana”. Foto: LUSA/EPA

Olhamos impotentes a situação do mundo e lembramos, de novo, a encíclica Pacem in Terris: “Fazemos ardentes votos que a Organização das Nações Unidas, nas suas estruturas e meios, se conforme cada vez mais à vastidão e nobreza de suas finalidades, e chegue o dia em que cada ser humano encontre nela uma proteção eficaz dos direitos que promanam imediatamente de sua dignidade de pessoa e que são, por isso mesmo, direitos universais, invioláveis, inalienáveis. Tanto mais que hoje, participando as pessoas cada vez mais ativamente na vida pública das comunidades políticas, denotam um interesse crescente pelas vicissitudes de todos os povos e maior consciência de serem membros vivos de uma comunidade mundial” (PT. 197). 

Insere-se nesta preocupação a recente Exortação Apostólica sobre o cuidado da Igreja pelos pobres e com os pobres, intitulada Dilexi te, imaginando Cristo a dirigir-se a cada um desses pobres dizendo: “Tens pouca força, pouco poder, mas «Eu te amei» ( Ap 3, 9)”. O Papa Leão XIV, ao receber essa herança do Papa Francisco, que preparava este documento quando partiu, assumiu-o como seu, sentindo-se feliz nessa condição, acrescentando algumas reflexões no início do seu pontificado e partilhando o desejo do seu antecessor no sentido de que todos os cristãos possam perceber a forte ligação existente entre o amor de Cristo e o chamamento a tornarmo-nos próximos dos pobres. Na verdade, é necessário insistir neste caminho de santificação, porque no «apelo a reconhecê-Lo nos pobres e atribulados, revela-se o próprio coração de Cristo, os seus sentimentos e as suas opções mais profundas, com os quais se procura configurar todo o santo». A Exortação Apostólica, datada do dia da memória litúrgica de S. Francisco de Assis, 4 de outubro de 2025, constitui um documento de grande relevância, sobretudo para o momento atual, uma vez que põe a tónica no reconhecimento do outro como complemento de nós mesmos, com especial relevância para os pobres. E nota-se uma especial preocupação em encontrar novas pistas no sentido de ligar a luta contra a pobreza e a provação com o desenvolvimento humano e a busca da universal dignidade da pessoa humana. 

O Papa Francisco, ao recordar a escolha do próprio nome, contou que, após a sua eleição, um Cardeal amigo abraçou-o, beijou-o e disse-lhe: «Não te esqueças dos pobres!». É a mesma recomendação feita pelas autoridades da Igreja a São Paulo quando subiu a Jerusalém para verificar a sua missão. E o Apóstolo pôde afirmar anos mais tarde: «foi o que procurei fazer com o maior empenho». Trata-se da mesma escolha de São Francisco de Assis: no leproso, foi o próprio Cristo que abraçou, transformando a sua vida. Assim, a figura luminosa do Poverello jamais deixa de ser inspiradora. E devemos recordar ainda as palavras de S. Paulo VI: «Aquela antiga história do bom samaritano foi exemplo e norma segundo os quais se orientou o nosso Concílio». Deste modo, «pode dizer-se que o compromisso em favor dos pobres e pela erradicação das causas sociais e estruturais da pobreza, embora tenha adquirido maior importância nas últimas décadas, continua a ser insuficiente; até porque as sociedades em que vivemos privilegiam, com frequência, linhas políticas e padrões de vida marcados por numerosas desigualdades e, por isso, às antigas formas de pobreza que (…) se procuram combater, acrescentam-se outras novas, por vezes mais subtis e perigosas». Compreende-se por isso que as Nações Unidas tenham colocado a erradicação da pobreza como um dos objetivos do Milénio.

O restante do 1º Plano pode ser lido na versão impressa da Revista Boa Nova de dezembro 2025. Faça já a sua assinatura.