(Daniel Castilla) – Numa entrevista à Fundação AIS Internacional, o Padre Diego Dalle Carbonare, missionário comboniano com experiência no Egipto, Líbano e Sudão, destaca a responsabilidade colectiva que as pessoas partilham, enquanto cidadãos do mundo, pela construção da paz, inclusive em locais que o mundo esqueceu. É o caso do Sudão.

A Igreja Católica ensina que partilhamos uma casa comum. A distância não deve ser um obstáculo. O que está a acontecer no Sudão, o que está a acontecer em África, aos civis, às crianças e às mulheres, diz respeito a todos nós de alguma forma”, diz o sacerdote. Para ilustrar este dever comum, o Padre Diego afirma que “todos acreditamos num juízo final”.
“Um dia, Deus irá julgar-nos, e muitos ficarão surpreendidos quando Ele nos perguntar sobre as guerras esquecidas. Como cidadãos, temos o dever de pedir aos nossos governos que façam tudo o que estiver ao seu alcance para acabar com as guerras e regulamentar o comércio de armas e de ouro, que é o que financia guerras como a do Sudão.”
“Somos todos cidadãos de países cujos governos devem ser responsabilizados pelo seu compromisso com a paz no mundo, em todo o lado. Por isso, esquecer o Sudão, ou qualquer país africano, não é algo que devamos tomar de ânimo leve, nem nós nem os nossos governos.“
Pe. Diego Dalle Carbonare
“Virar a página do sofrimento…”
O Sudão tem sido assolado pela guerra há três anos. O exército assumiu o controlo de Cartum, permitindo que a comunidade cristã regressasse à capital. Este foi um passo muito importante para os cristãos sudaneses, que eram cerca de um milhão antes da guerra e que, após 27 meses, puderam finalmente regressar à prática dos sacramentos na cidade, incluindo a celebração da Missa e a confissão, sendo esta última uma ajuda importante para “virar a página do sofrimento para a reconstrução”.
O missionário adverte, no entanto, que as almas não são a única coisa que precisa de ser reconstruída em Cartum. Durante o seu tempo no Sudão, o Padre Diego também foi professor e afirma que muitas escolas perderam tanto alunos como professores devido à guerra. Agora que estão a regressar, terão de ver se podem continuar a ensinar nas mesmas escolas ou se precisam de se reorganizar.
Professor sofreu uma morte lenta
Muitas destas famílias fugiram do país ou mudaram-se, e o Padre Diego faz questão de partilhar algumas das suas histórias. “Muitos professores e as suas famílias tiveram de se deslocar de um lugar para outro; há até pessoas que fugiram para o Sudão do Sul, pessoas que estavam quase a terminar o curso e de repente se viram sem trabalho e sem futuro. Alguns professores foram mortos; um foi capturado e torturado. Foi uma história trágica. Ele ia casar-se, poderia ter sido director de escola e, em vez disso, sofreu uma morte lenta…”, denuncia o padre Diego Carbonare.
“Outra professora, viúva, não conseguiu sair de Cartum porque tinha de cuidar da sua mãe idosa. As Forças de Apoio Rápido, um grupo paramilitar, queriam roubar-lhe o carro e foram à sua casa repetidamente. Ela disse-lhes que podiam levá-lo, mas eles não a deixavam em paz. Um dia, levaram-na para dentro e disseram-lhe que a iam matar. Ela respondeu: ‘Está bem, façam o que têm de fazer, mas lembrem-se: quem vive pela espada, morrerá pela espada’. Surpreendidos, perguntaram-lhe o que queria dizer, e ela explicou: ‘É do Evangelho, não sabem?’ E eles fugiram”, narra o sacerdote na entrevista à Fundação AIS. “Ela contou o episódio com calma, mas acrescentou: ‘A Palavra de Deus é poderosa’. No dia seguinte, eles voltaram e pediram perdão.”
“A comunidade precisa de pastores”
Estas histórias, e outras, mostram como “a guerra pode trazer à tona o pior de uma pessoa, mas também vemos muitos exemplos de bons samaritanos”, explica o Padre Diego. A comunidade “precisa de pastores”, diz ele, e é por isso que o seu principal pedido à AIS é mesmo por mais oração.
“Os missionários dependem das orações de amigos e desconhecidos. A AIS está a dar-nos muito apoio no nosso esforço para reconstruir esta comunidade, mas ainda há muito a fazer“
Pe. Diego Dalle Carbonare
A Ajuda à Igreja que Sofre reza pelos cristãos do Sudão e tem levado a cabo vários projectos para apoiar a Igreja na sua missão em todo o país. Actualmente, estão em curso 15 projectos da fundação pontifícia em território sudanês.


