A descoberta interior do dom de Deus

(Pe. Rui Ferreira, a partir da Mensagem do Papa Leão XIV para o Dia Mundial de Oração pelas Vocações) – Na sua primeira mensagem para o Dia Mundial de Oração pelas Vocações, o Papa Leão XIV partilha “algumas reflexões sobre a dimensão interior da vocação, entendida como descoberta do dom gratuito de Deus que floresce no mais profundo do coração de cada um de nós”. O Santo Padre convida a cuidar da interioridade, para podermos percorrer a via da beleza, aprofundar o conhecimento recíproco e a confiança em Deus, rumo ao amadurecimento da nossa vocação/missão. 

 “Parai em adoração eucarística, meditai assiduamente a Palavra de Deus para a viverdes todos os dias, participai ativa e plenamente na vida sacramental e eclesial”. Foto: Patriarcado de Lisboa

A via da beleza

Segundo São João, Jesus define-se literalmente como o «pastor belo». Para ver esta beleza/bondade, são necessárias a interioridade e a contemplação. “Só quem se detém, escuta, reza e acolhe o seu olhar pode dizer com confiança: «Acredito n’Ele, com Ele a vida pode ser realmente bela, quero percorrer a via desta beleza». E o mais extraordinário é que, ao tornarmo-nos seus discípulos, nos tornamos também «belos»: a sua beleza transfigura-nos”. Eis a profundidade da vocação cristã: “participar da sua vida, partilhar a sua missão, brilhar a partir da sua própria beleza”.

Como filho de Santo Agostinho, o Papa apresenta o exemplo do Santo de Hipona que descobre Deus como «mais íntimo do que o meu próprio íntimo». Para isso, é preciso cuidar “da interioridade como espaço de relação com Jesus, como via para experimentar a beleza e a bondade de Deus na própria vida”. Esta relação, fundada na oração e no silêncio, abre-nos à possibilidade de acolher e viver o dom da vocação como um projeto de amor e felicidade. É urgente refundar a pastoral vocacional e o compromisso missionário desde o cuidado da interioridade. 

“Parai, escutai, confiai: deste modo, o dom da vossa vocação amadurecerá, far-vos-á felizes e dará abundantes frutos para a Igreja e para o mundo”.
Foto: Duarte Mourão Nunes JMJ2023

Conhecimento recíproco

“Cada vocação só pode começar a partir da consciência e da experiência de um Deus que é Amor: Ele conhece-nos profundamente, contou os cabelos da nossa cabeça e para cada um pensou um caminho único de santidade e serviço”. Este conhecimento deve ser recíproco e constrói-se através da oração, da escuta da Palavra, dos Sacramentos, da vida da Igreja e da doação aos outros. Neste tempo turbulento, devemos parar e redescobrir que “Deus habita no nosso coração: a vocação é um diálogo íntimo com Ele que nos chama, convidando-nos a responder com verdadeira alegria e generosidade”. O encontro pessoal com Deus transforma a vida.

Confiança

Do conhecimento brota a confiança, filha da fé, essencial tanto para acolher a vocação como para perseverar nela. “A vida revela-se como um contínuo confiar e abandonar-se ao Senhor, mesmo quando os seus planos perturbam os nossos”. Leão XIV aponta São José como “ícone de confiança total no desígnio de Deus”. Somos desafiados a cultivar uma confiança sólida e permanente, sem ceder ao desespero, “certos de que o Ressuscitado é o Senhor da história do mundo e da nossa história pessoal: Ele não nos abandona nas horas mais sombrias, mas vem dissipar com a sua luz todas as nossas trevas”. 

Amadurecimento

Com a força do Espírito, mesmo nas provações e crises, e apesar das nossas feridas e quedas, “podemos ver a nossa vocação amadurecer, refletindo cada vez mais a beleza d’Aquele que nos chamou, uma beleza feita de fidelidade e confiança”. 

A vocação não é estática, “mas é um processo dinâmico de amadurecimento, favorecido pela intimidade com o Senhor: estar com Jesus, deixar o Espírito Santo agir nos corações e nas situações da vida e reler tudo à luz do dom recebido significa crescer na vocação”. Não é uma posse imediata, “é antes um caminho que se desenvolve de forma análoga à vida humana, em que o dom recebido, além de ser guardado, deve alimentar-se de uma relação quotidiana com Deus para poder crescer e dar fruto”. “Parai, escutai, confiai: deste modo, o dom da vossa vocação amadurecerá, far-vos-á felizes e dará abundantes frutos para a Igreja e para o mundo”, conclui o Papa Leão XIV.