A Menorah da Quaresma na Invicta Cidade: Aprender a ver devagar


(Sérgio Carvalho) – Sete luzes para quarenta dias e uma chama que vence a noite.

A Estação de São Bento estava cheia como sempre. Pessoas apressadas, malas a arrastar, olhares colados aos painéis eletrónicos. Samuel entrou sem pressa. Os azulejos azuis chamaram-lhe a atenção. Nunca os tinha observado com calma.

Ali estavam batalhas, reis, povo anónimo. Histórias de luz e sombra. Pensou no cego de nascença: alguém que nunca tinha visto nada — e que acabou por ver mais longe do que todos.

Sentou-se num banco de pedra. Reparou num homem a pedir esmola perto da entrada. Passara por ele dezenas de vezes sem o ver verdadeiramente. Levantou-se, aproximou-se, falou-lhe. Poucas palavras. Um sorriso cansado. Um obrigado sincero.

Ao afastar-se, sentiu algo diferente. Como se uma camada lhe tivesse caído dos olhos.

A quarta chama da menorah acendeu-se. A luz já não servia apenas para o seu caminho interior — começava a iluminar os outros.

Samuel percebeu: a fé não é só rezar melhor. É olhar melhor.