Centenário do nascimento do Pe. Manuel Joaquim Cristóvão: a pessoa, a família, a comunidade

(Libânio Martins, Grupo promotor da celebração do 100.º aniversário do nascimento do Pe. Manuel Joaquim Cristóvão) – A vida do Pe. Cristóvão deixou um rasto de amor, pois o sangue dos mártires é semente. Como tal, os seus conterrâneos desejam celebrar a sua memória no centésimo aniversário do seu nascimento. Libânio Martins partilha as raízes do missionário que partiu para semear a sua vida em terra estrangeira. A memória do Pe. Cristóvão está bem viva no coração dos seus conterrâneos.

Pe. Manuel Joaquim Cristóvão numa das comunidades do Alto Changane. Foto: Arquivo Fotográfico SMBN

“Não morre quem semeia para a eternidade”, reflete um princípio espiritual e moral profundo, associado à ideia de que as ações realizadas com amor, bondade e propósito divino (ou altruísta) transcendem a morte física, deixando um legado duradouro. A vontade e determinação da família, pessoas amigas, conterrâneas e entidades religiosas, sociais e cívicas, em lugar cimeiro, responsáveis e companheiros da Sociedade Missionária da Boa Nova (SMBN), desde cedo, prosseguem no propósito de dar a conhecer mais e melhor a memória da atividade missionária e dos valores que o Pe. Manuel Joaquim Cristóvão abraçou e defendeu até à entrega da sua própria vida pelos mais necessitados.

Por razões pessoais, familiares e comunitárias das nossas raízes, na aldeia das Corgas (Proença-a-Nova), no âmbito do trabalho sobre os “6 padres nascidos na aldeia das Corgas”, e outros, realizámos pesquisas, em que o Pe. Cristóvão despertou particular interesse. 

A pessoa e a obra do Pe. Cristóvão revelam-se como um referencial de respeito, admiração e de fortes convicções de todos os seus familiares, o que constitui um valioso património imaterial, humano e religioso disponível, que apostamos em valorizar, porventura, até à edição em livro, para que perdure nas gerações presentes e nas vindouras. 

Pe. Manuel Joaquim Cristóvão a administrar os sacramentos entre a população de uma comunidade. Foto: Arquivo Fotográfico SMBN

Conhecemos os factos da vida do P. Manuel Joaquim Cristóvão, o dia do nascimento, 26 de abril de 1926, até ao dia da sua partida para a eternidade, em 21 de janeiro de 1991, há 35 anos. Tivemos acesso a cartas que escreveu a familiares, a testemunhos de quem o conheceu nas múltiplas atividades que desenvolveu e das vivências e realizações nos 30 anos de vida como missionário em Moçambique, de 1961 a 1991.

Sentimos, neste percurso, a afirmação da disponibilidade e generosidade permanentes, por inteiro, às causas da fé, da justiça e da paz, até à emulação da própria vida pelo martírio. Justamente, pelo exemplo sublime e para todo sempre, com todo o merecimento, são devidas todas as iniciativas já realizadas e as previstas, bem como testemunhos orais e escritos, a que nos associamos ao longo dos anos e, em especial, neste ano de 2026.

Lembrar o Pe. Cristóvão possibilitou conhecer uma pessoa carismática. Quem nasceu naquele ano de 1926, na aldeia das Corgas, interior de Portugal, igual a tantas outras aldeias, com as condições e modos de vida da época, vivia anos de muita dureza. Os seus pais, Nazaré de Jesus e Manuel Cristóvão, constituíram família, em 20 de outubro de 1920, na casa de família, no sítio da Eira/Vinha, em Corgas, vivendo aqui até ao início da década de 1930. O casal e os 6 filhos, alguns de colo, pelo ano de 1932 saíram da aldeia, para se fixarem no sítio do Fatelo, que deu nome ao agregado familiar, a cerca de 3 km das Corgas.

A família vivia da exploração das terras que possuíam. Viu, um a um, os filhos partirem na procura de melhores condições de vida. O pai, Manuel, carpinteiro de profissão, faleceu no final da década de 1930. A mãe, Nazaré de Jesus, sustentou os 6 filhos com apoio de familiares e pessoas amigas. Teve uma vida longeva, em companhia do filho mais velho, José, que constituiu família e ali permaneceu em apoio da mãe, até ao seu falecimento, no dia 2 de janeiro de 1986. 

O Pe. Cristóvão concluiu os estudos eclesiásticos e prosseguiu no ministério do sacerdócio e, na década de 1950, os seus irmãos, António e Joaquim, partiram para o Brasil e aí organizaram as suas vidas com as suas famílias. Contudo, o Fatelo e as Corgas permaneceram neles para sempre. Aqui voltavam sempre que podiam; tal como acolheram sempre os familiares, a mãe Nazaré, o Pe. Cristóvão, o irmão José, entre outros, em visitas ao Brasil.

Das filhas do casal, Maria do Carmo havia de partir com 9 anos. A filha Maria de Jesus, após internato num convento em Braga, regressou à casa do Fatelo e, adquirida habilitação reconhecida, desempenhou as funções de professora regente, entre outras, na escola das Corgas, onde ainda hoje pessoas a lembram pelo seu carácter austero, duro e exigente. Constituiu família e viveu em Proença-a-Nova.

Juntamente com o Irmão José Mota, o Pe. Manuel Joaquim Cristóvão foi o fundador da Missão de Alto Changane, Moçambique. Foto: Arquivo Fotográfico SMBN

Da formação do Pe. Cristóvão, depois dos estudos na escola primária das Corgas − palmilhando, no percurso de ida e vinda, mais de 10 km por dia −, escreveu os ensinamentos que o marcaram da professora D. Josefa Maria, que relatou em vários momentos e guardou por toda a sua vida. Após os estudos nos seminários da SMBN (Tomar, Cernache e Cucujães), depois de ser ordenado presbítero, assumiu diferentes responsabilidades, desde professor em Tomar e Cucujães, até à direção dos Irmãos e da Escola Tipográfica das Missões. 

A partida para Moçambique, em 1961, foi um marco vital da sua vocação como missionário, na dedicação e dádiva pelos mais carentes. Animado pela fé e pelo ministério em que foi investido, conheceu a dureza dos caminhos e a estadia, tal como nas vivências de infância na aldeia, partiu para África onde, como missionário, sobreviveu à perseguição, à fome e à guerra colonial, mas não à guerra civil. São anos em que, na Missão que constrói [Alto Changane], leciona, cria e aplica métodos adaptados à aprendizagem pelas populações rurais que apoia, em aldeias onde grassa a pobreza e a miséria, a quem se dedica e visita com regularidade, prestando apoio espiritual e mesmo material. 

Moçambique foi a sua terra de trabalho por 30 anos, cerca de metade do seu tempo de vida. Cumpriu as responsabilidades que a Igreja lhe atribuiu, lutou em prol da fé e em benefício das comunidades, com imensa preocupação, a cuidar e tratar da melhoria das condições de vida das pessoas. O Pe. Cristóvão cumpriu por inteiro a sua missão, até ao limite da sua vida. Partiu para a eternidade e vive para sempre na memória da comunidade da aldeia das Corgas.

Com este testemunho, descobrimos marcas que gostaríamos de deixar escritas e destacar para continuar como marcadores de eternidade. Com o Pe. Cristóvão ouvimos ecos da aldeia que nos viu nascer, que hoje e no futuro vão permanecer infindáveis. Este testemunho é memória, pois “um povo sem memória é um povo sem história. E um povo sem história está fadado a cometer, no presente e no futuro, os mesmos erros do passado” (Emília Viotti da Costa).

Finalizamos com palavras do saudoso Papa Francisco: “Plantai sementes de esperança, andai contra a corrente, transformai uma parede num horizonte”. Bem-haja, Pe. Cristóvão, pelo exemplo, para nós, para a aldeia onde nascemos e para todas as comunidades com quem trabalhou, com dedicação e dádiva da vida.

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