(Eva Dias e Pe. Jerónimo Nunes) – A revista Boa Nova esteve à conversa com a Irmã Isabel Sousa, Missionária da Boa Nova, 50 anos, natural de Felgueiras. Nela percorre a sua história vocacional, as experiências marcantes no Brasil e em Moçambique, a missão atual na cidade de Maputo, e a reflexão sobre o papel da Mulher na Missão e na Igreja. O testemunho revela uma vida profundamente marcada pela entrega, pela escuta e pela compaixão, sempre com um olhar atento e sensível às necessidades concretas da realidade que a rodeia.

Origem da vocação e primeiros passos
A Irmã Isabel Sousa descreve a sua vocação como fruto de uma inquietação adolescente: “tinha aquela vontade de mudar o mundo e África mexia comigo”. As imagens dos conflitos em Angola e Moçambique, vistas nos telejornais, despertaram nela um desejo de partir e ajudar. Inicialmente pensava fazê-lo sozinha, como leiga, mas aos 18 anos, aconselhada pelo pároco, descobriu a vida religiosa.
O curso de enfermagem caminhou lado a lado com o discernimento vocacional. O contacto com as Missionárias da Boa Nova deu-se quando foi estudar para o Porto e ficou alojada na sua casa: “As suas histórias de vida começaram a fazer sentido para mim e comecei a interrogar-me: ‘Por que não aqui?’ Este foi o grande momento da minha opção. Faz-me sentido ser Missionária da Boa Nova.” Um ano depois, iniciou a formação religiosa e, passados cerca de dois anos e meio, fez a consagração religiosa. Foi enviada para o Brasil em 1998.
Mata Roma (Brasil): o berço missionário
A primeira missão, em Mata Roma, no Maranhão, foi para a Irmã Isabel Sousa uma verdadeira escola de vida. Aqui descobriu a força da comunidade, o valor da escuta e a importância da presença. O Pe. Manuel Neves, Missionário da Boa Nova, ensinou-lhe a “pastoral do sentadinho”: “As pessoas estão em casa, sentadas à porta. Tu sentas ao lado e escutas.” Este método simples e verdadeiramente humano marcou o início da sua prática missionária: “Esse foi o meu primeiro trabalho: ouvir as pessoas.”

Em Mata Roma participou na Pastoral da Criança, deu formação a lideranças comunitárias e foi desafiada a falar em público, algo que lhe era difícil: “Eu saí de Portugal sem ‘saber falar’. E eles obrigaram-me a falar. Então eu aprendi a falar”. A experiência transformou-a, levando-a a orientar celebrações da Palavra, participar em programas de rádio e formar lideranças locais. Descreve Mata Roma como “o meu berço”, onde aprendeu a ser missionária.
Ocua (Moçambique): o sonho tornado realidade e o choque da pobreza extrema
Depois de dez anos no Brasil, a Irmã Isabel foi enviada para Ocua, no norte de Moçambique, uma aldeia remota, marcada pela extrema pobreza. Para ela, foi a concretização de um sonho antigo: “Ocua foi o sonho tornado realidade”. Mas também um confronto duro com a realidade: ausência de luz, isolamento total após as 17h, medo de cobras, falta de recursos básicos e longas distâncias. “Todas as noites às 17h00, como eu dizia, o mundo acabava, porque ninguém mais circulava. Às 5h00 da manhã, tudo nascia com o sol: nascia a atividade das mulheres e dos homens indo para o campo, as crianças vindo à missão para a escolinha.”
Chegou para substituir outra missionária, a Irmã Emília Oliveira, e rapidamente percebeu a dimensão das necessidades: “O dia precisava ter mais horas e eu não conseguia fazer tudo”. O maior desafio foi aprender a dizer “não”, sobretudo quando vidas estavam em risco. Recorda a angústia de ter avaliado uma criança e, já de noite, sentir que talvez tivesse falhado: “Às 23h pedi: ‘Vamos à aldeia, quero ir à procura dessa criança’”.
Dois dramas marcaram profundamente esta etapa: por um lado, as mulheres seropositivas em situação de grande fragilidade, muitas morrendo no dia seguinte à chegada ao hospital; por outro, as crianças órfãs e subnutridas, muitas vezes entregues a avós sem meios. A partir daí, iniciou um trabalho de cuidados de saúde primários: “começámos com os acompanhamentos de grupos de mães ou de avós que traziam as crianças. Fomos dando leite, fazendo o acompanhamento quinzenal com essas famílias, ensinando a fazer papas enriquecidas, toda essa bagagem que eu trouxe tornou-se a grande mais valia”. A barreira da língua dificultava o trabalho com as jovens e mulheres, obrigando ao uso constante de tradutores: “havia a dificuldade em conversar com as meninas porque elas não iam à escola e pouco falavam português“.

A comunidade reconheceu nela uma figura materna: “Tornaram-me a mãe, ou aquela tia solteira que cuida dos sobrinhos, por ser um ponto de referência a consultar. A minha opinião contava”. A visita pastoral do bispo, seis meses após a sua chegada a Ocua, confirmou a sua integração: “você entrou bem porque o povo gosta de si. Ouvi da última vez que eu vim que aqui tinha um problema, que precisavam de ‘amarrar a lenha’. Hoje eu vejo que a lenha está amarrada”, disse-lhe, usando um ditado local para elogiar o seu trabalho. Foram dois anos e meio de grande intensidade, aprendizagem e entrega.
Regresso a Portugal e nova etapa
A saída de Ocua foi inesperada e dolorosa. Na Assembleia de 2012, a Irmã Isabel Sousa foi eleita responsável das Missionárias da Boa Nova. “Eu não queria sair. Para mim ali era para viver, ficar e morrer”, confessa. “Em setembro de 2016 completei 4 anos, depois renovei mais 4 anos, e mais 2, porque veio a COVID-19, não era possível fazer a Assembleia e fiquei”. Viveu dez anos em Portugal, com várias viagens de curta duração à missão, para acompanhar as colegas. Durante este período, fez um mestrado em enfermagem, cujo estágio realizou em Moçambique: “Entretanto fiz o mestrado e, no momento do estágio, pedi que o estágio fosse em Moçambique. Fiquei 5 meses em Moçambique, a implementar um projeto na área da enfermagem comunitária”.
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