(Pe. Adelino Ascenso, Superior Geral da SMBN) – À semelhança do barro nas mãos oleiro (Jeremias 18, 4-6) e do tesouro contido em vasos de barro quebradiço (2Coríntios 4, 7), o termo japonês Kintsugi convida a valorizar o imperfeito e o vulnerável. A conversão do coração que se pede a todo o discípulo missionário de Cristo passa também pelo conhecimento e pela aceitação das suas próprias feridas e imperfeições, assim como das imperfeições e feridas dos irmãos e de todas as criaturas. Aprender a valorizar o imperfeito, confiantes na graça de Deus, pode ajudar-nos a percorrer o deserto quaresmal.

1. Kintsugi é um termo japonês que significa a reparação de uma peça de cerâmica com metais nobres (ouro, prata ou platina). E isto pode ser considerado uma filosofia de vida: valorizar o imperfeito e o vulnerável. Há aqui uma relação intrínseca com outro termo: o wabi-sabi, que é um ideal filosófico, assim como uma abordagem estética que se foca na aceitação da transitoriedade e da imperfeição dos objetos e dos seres humanos. Este ideal filosófico de wabi-sabi desenvolveu-se no século XVI, no contexto do budismo zen e da cerimónia do chá. Tem a ver com o sentido de despojamento, introduzido na cerimónia do chá pelo grande reformador Sen no Rikyu (1522-1591): simplicidade, quietude, subtileza, harmonia espiritual.
2. Vivemos num constante refazermo-nos, sempre incompletos, sempre imperfeitos, sempre falíveis, mas colaborando com Deus «no aperfeiçoamento da criação visível», como diz o número 378 do Catecismo da Igreja Católica. Cometemos erros e aprendemos com esses mesmos erros, recorrendo à imaginação criativa e à liberdade no exercício prático entre criatividade e fidelidade. O ser humano não é perfeito, podendo gaguejar, hesitar, comover-se, rir ou chorar; ferir-se e ser «concertado» com material precioso, à semelhança do kintsugi. Nada poderá ultrapassar o mistério de que o ser humano é filho. Imperfeito e incompleto, sim, mas não será na sua imperfeição que se encontra a sua beleza?
3. Requer-se-nos que sejamos poetas e artistas do divino, não me canso de o repetir. O artista e o poeta são aqueles que procuram abrir as comportas ao brotar de um impulso que os leva a dizer o indizível, a fazer ver o invisível. Uma «necessidade interior», na linha das palavras do pintor russo Wassily Kandinsky (1866-1933), que nos empurra e não permite que nos sintamos saciados; um género de íman que nos atrai. Diz o dramaturgo e poeta norueguês Jon Fosse, prémio Nobel da literatura em 2023, que tanto a grande proximidade de Deus como a sua infinita distância não nos permitem vê-lo. Mas será na grande arte que sentiremos a sua presença. A grande arte é a sublimação da oração.
4. Entrámos no quarto ano do Itinerário rumo ao Centenário da Sociedade Missionária da Boa Nova (1930-2030). Tendo como esteira as Bem-aventuranças, refletiremos, em 2026, sobre o versículo «Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados» (Mt 5,6). Teremos de recomeçar sempre, refazermos e refazermo-nos, reconstruirmos e reconstruirmo-nos; teremos de permitir que sejamos concertados. E perguntarmos sempre: Onde estamos? Que fazemos? Porque é que o fazemos? Manter o foco na paixão do primeiro amor, o que é sempre o mais difícil. «Ser», sempre! Dar sentido ao nosso «fazer»; dar alma ao nosso «fazer». Porque a nossa missão não é só o que fazemos, mas sim, fundamentalmente, aquilo que somos. E para sermos «de Cristo», será necessário voltarmos à sua mensagem, à fonte, àquilo que Ele nos diz que façamos.
5. Assim como a peça de cerâmica é consertada com metais nobres, permitamos que Deus nos conserte e valorize as nossas fragilidades. Ele será o «metal nobre» que nos costura, nos recompõe, nos conserta, de modo a que sejamos profetas diante das injustiças e artistas e poetas do divino nos nossos gestos e nas nossas ações como Servidores das Bem-aventuranças.
(Texto publicado no Boletim Familiar n.º 431 da SMBN)


