(P. Manuel Augusto Lopes Ferreira, Diretor Nacional das Obras Missionárias Pontifícias) – No Domingo 18 de Outubro de 2026 celebra-se o Dia Mundial das Missões (DMM); a celebração deste ano marca o Centenário da instituição desta jornada, pelo Papa Pio XI, em 14 de abril de 1926. Desde então, andámos um longo caminho! Ao dizer andámos, refiro-me a todos na Igreja: Papas, Bispos, Sacerdotes, Missionários, Consagrados, Leigas e Leigos. Um breve olhar para trás permite-nos refazer este caminho andado, pelo que se refere aos conceitos e às práticas da Evangelização.

Pelo meio, no caminho destes cem anos, houve de tudo. Antes de mais, na Sociedade: uma guerra mundial de consequências devastadoras; movimentos e guerras de libertação colonial nos continentes; reconstrução e unificação da Europa; a globalização do comércio, dos capitais e das ideias; as redes sociais e a comunicação digital; a inteligência artificial, os algoritmos e os robots. Depois, na Igreja: um concílio Ecuménico (Vaticano II) e a renovação eclesial que se iniciou sobre todas as frentes, particularmente a da Evangelização; uma série de Papas e líderes eclesiais que marcaram estes cem anos e reinterpretaram o mandato missionário de Jesus, à procura de maneiras adequadas para levar o Evangelho de Jesus a todos os povos, pessoas e suas culturas.
Natureza desta Jornada

O pontapé de partida, destes cem anos a conjugar a missão, já definia a natureza desta jornada, uma das mais populares em termos de mobilização eclesial. Pio XI (Rerum Ecclesiae, de 1926) fala «em dois pontos, ambos mais do que oportunos, necessários e intimamente ligados: a saber, um número muito maior de obreiros evangélicos, bem formados e dotados de diversos conhecimentos, para serem enviados … ; e uma maior compreensão do dever que impele os fiéis a cooperarem numa obra tão santa e fecunda com entusiasmo e fervor, com oração assídua e generosidade.»
O Dia Mundial das Missões é uma jornada que tem a ver, antes de mais nada, com pessoas; as dos missionários, que são desafiados a continuar a partir para levar o Evangelho aos povos; e as dos fiéis, que são convidados a participar activamente nas iniciativas e nos esforços da Igreja para cumprir o mandato missionário de Jesus.
A primeira mensagem para o Dia Mundial das Missões (que é de Paulo VI, em 1963) deixa claro também a ligação que existe entre esta jornada e as Obras Missionárias Pontifícias. Diz o Papa: «Todo o mundo católico conhece e ama as Obras Missionárias Pontifícias, que visam organizar e fortalecer a generosidade dos fiéis em favor dos arautos do Evangelho: em primeiro lugar, destaca-se a Sociedade para a Propagação da Fé, apoiada como valiosas auxiliares pela Sociedade da Santa Infância e pela Sociedade de São Pedro Apóstolo para o clero nativo dos países abertos ao Evangelho. Sua essência é a Pontifícia União Missionária do Clero, que, por meio dos sacerdotes, alimenta o espírito missionário em todos os fiéis. São chamadas Obras Pontifícias porque são próprias da Sé Apostólica.» E Paulo VI recomenda «com carinho e afeto paternal as nossas Obras Missionárias aos Nossos Veneráveis Irmãos no Episcopado, ao amado clero diocesano e regular, (…) e a todos os fiéis que o Senhor escolheu confiar aos Nossos cuidados. Cada um, segundo a sua responsabilidade e tarefa, em espírito de fé e caridade esclarecida, deve contribuir ao máximo para o crescimento das Obras Missionárias Pontifícias que, pela vontade da Sé Apostólica, devem ser estabelecidas em cada diocese de cada nação, onde os dignos Diretores nacionais e diocesanos destas Obras — em colaboração com a Sagrada Hierarquia — a elas dedicam a sua energia e entusiasmo.»
A Missão renova a Igreja
Um olhar rápido às mensagens do DMM, ao longo destes anos (ver o ebook no site das OMP), mostra como a Igreja aprofunda a sua consciência missionária e se situa diante dos povos: as várias dimensões da Evangelização são postas em relação (testemunho, martírio e anúncio; Evangelização, desenvolvimento e promoção humana; primeiro anúncio, conversão e baptismo…) numa missão que requer uma formação missionária urgente e um treino missionário continuado.
O longo pontificado de João Paulo II relançou a missão, tanto reafirmando as grandes encíclicas de Paulo VI (Evangelii Nuntiandi) como propondo o seu próprio ensinamento missionário com a encíclica Redemptoris Missio e reafirmando a responsabilidade missionária de bispos e clero, no 25º aniversário da Fidei Donum. Mas foi o breve pontificado do Papa Francisco que lançou a reconfiguração missionária da Igreja que estamos a viver, à luz da Alegria do Evangelho. Confirma-se assim que «a missão renova a Igreja, revigora a fé e a identidade cristã, dá novo entusiasmo e nova motivação. A fé fortalece-se ao ser dada» (Mensagem de 1991).
Construir a Unidade
Na sua mensagem para este centenário do DMM, o Papa Leão XIV quer dar um contributo à construção da unidade da Igreja, adoptando uma aproximação teológica que nos pede uma leitura espiritual do texto, distinguindo nele três partes.
Uma primeira, onde é afirmada a natureza da Unidade da Igreja com Cristo: o modelo é Trinitário e a Unidade da Igreja afunda as suas raízes na unidade entre o Pai e o Filho, uma unidade íntima, de pessoa a pessoa. Trata-se de uma graça a pedir na oração (Jo 17, 20-21), de um Dom que não somos capazes de produzir, mas tão só de invocar; digamos que não é uma questão de mera organização, mas de divina comunhão, para a qual o Pai nos atrai; uma graça e um privilégio (Gál 3, 26-28) que nos são concedidos no Baptismo.

Na segunda parte da mensagem, o Papa fala da Unidade entre os Cristãos, uma Unidade em vista do testemunho, para que o mundo acredite (Jo 17, 21). Para os discípulos-missionários de Cristo, trata-se de uma unidade não centrada em si mesmos, virada para dentro, mas de uma unidade virada para fora, de um dinamismo que os leva a sair; a unidade torna-se assim como que uma condição para a missão, uma afirmação de princípio missionário. Na perspectiva de S. Paulo (1 Cor 12, 25), a Unidade não elimina a Diversidade (de pessoas, carismas, dons e funções…) mas leva a Unidade a uma plenitude, onde se vive a preocupação por cada um e pelo bem comum; diríamos que temos aqui o misticismo da Unidade baptismal, que só por si contém um forte poder de proclamação (como confirma a narrativa de Act 2, 43-47). Enquanto o escândalo divide, a unidade manifesta a chegada de uma nova humanidade, torna-se proclamação missionária.
Na terceira parte da sua mensagem, Leão XIV relaciona a Missão com o Amor e afirma que o amor é a substância da Igreja e da sua missão. A Igreja é um povo de comunhão: somos baptizados não no nosso nome, mas no nome de Deus – Trindade de Pessoas, Pai, Filho e Espírito Santo; o maior dos Dons é o Amor e pelo amor nos reconhecerão. O Amor é a marca da Missão que une os Cristãos com todas as pessoas e todos os povos; o poder do amor une as pessoas e os povos, sem negar a diversidade de pessoas e culturas; e só o amor permite sarar as feridas e os traumas que as divisões geram, impedindo a comunhão.
Conclusão
No texto da mensagem do Papa conjuga-se a unidade com a diversidade, ambas afirmadas como condições de fecundidade apostólica. Diz Leão XIV: «Obviamente, a unidade missionária não deve ser entendida como uniformidade, mas como convergência dos diferentes carismas para o mesmo objetivo: tornar visível o amor de Cristo e convidar todos a um encontro com Ele. A evangelização realiza-se quando as comunidades locais colaboram entre si e quando as diferenças culturais, espirituais e litúrgicas se expressam plena e harmoniosamente na mesma fé. Encorajo, deste modo, as instituições e realidades eclesiais a fortalecer o sentido de comunhão missionária eclesial e a desenvolver com criatividade formas concretas de colaboração entre si para a missão e na missão.»


