PÓRTICO | A Epifania da gratuidade

(Pe. Rui Ferreira, diretor da Revista Boa Nova)

«Na vida, nada é de graça; tudo se paga. Só uma coisa é gratuita: o amor de Jesus! Assim, com este dom gratuito que temos – o amor de Jesus – e com a vontade de caminhar, caminhemos na esperança, olhemos para as nossas raízes e continuemos para diante, sem medo.»

Papa Francisco

Que marcas deixou em nós o Jubileu da Esperança? Ao encerrar a Porta Santa da Basílica de S. Pedro, o Papa Leão XIV colocou vários desafios que vale a pena guardar. Desde logo, devemos ter consciência de que, na Epifania do Senhor, “nada permanece como antes. Este é o início da esperança. Deus revela-se e nada pode permanecer imóvel”.

Quanto à multidão de peregrinos que cruzaram a Porta Santa, Leão XIV perguntou: “Quem foram eles e o que os motivava? No final do Ano Jubilar, questiona-nos com particular seriedade a busca espiritual dos nossos contemporâneos, muito mais rica do que talvez possamos compreender. Milhões deles atravessaram a soleira da Igreja. E o que encontraram? Que corações, que atenção, que acolhimento?”. Esta questão é fundamental e diz-nos respeito. Sim! Como é que eu acolho o outro? Não nos esqueçamos nunca que, acolher o estrangeiro e o peregrino, é acolher o próprio Cristo (cf. Mt 25, 40). 

 “Somos vidas a caminho”. Teremos nós medo do dinamismo de Deus que nunca “está imóvel nas nossas mãos como os ídolos de prata e ouro: pelo contrário, é vivo e vivificante”? E acrescenta: “há vida na nossa Igreja? Há espaço para o que está a nascer? Amamos e anunciamos um Deus que nos põe novamente a caminho?”. Tal como Deus, o outro, o estrangeiro, pode perturbar-nos e desinstalar-nos do nosso comodismo. É, por isso, crucial abrirmo-nos à novidade do Espírito, e, como os Magos, seguirmos os caminhos sempre novos suscitados pela alegria do Evangelho que liberta.

Quem passa a porta da Igreja deve encontrar esperança e vida. “O Jubileu veio para nos lembrar que é possível recomeçar, ou melhor, que estamos ainda no início. (…) Deus põe em questão a ordem existente: tem sonhos que ainda hoje inspira nos seus profetas; está determinado a resgatar-nos de antigas e novas escravidões”.

Leão XIV diz profeticamente que, “à nossa volta, uma economia distorcida tenta tirar proveito de tudo. O mercado transforma em negócios até mesmo a sede humana de procurar, viajar e recomeçar. Perguntemo-nos: o Jubileu ensinou-nos a fugir desse tipo de eficiência que reduz tudo a um produto e o ser humano a um consumidor? Depois deste ano, estaremos mais capacitados para reconhecer no visitante um peregrino, no desconhecido um buscador, no distante um vizinho, no diferente um companheiro de viagem?”. Se formos capazes disso – ver em cada ser um irmão – então valeu a pena. 

Jesus é o mestre da proximidade que “encontrou a todos e deixou que todos se aproximassem d’Ele. (…) Com Ele, aprendemos a interpretar os sinais dos tempos. Ninguém nos pode vender isto. O Menino que os Magos adoram é um Bem sem preço, nem medida. É a Epifania da gratuidade. Não nos aguarda em lugares prestigiados, mas nas realidades humildes”.

A Porta Santa foi selada, mas o caminho da esperança continua onde houver peregrinos a caminhar juntos. “É bom sermos peregrinos de esperança. E é bom continuar a sê-lo, juntos! A fidelidade de Deus continuará a surpreender-nos. Se não reduzirmos as nossas igrejas a monumentos, se as nossas comunidades forem casas, se resistirmos unidos às seduções dos poderosos, então seremos a geração da aurora (…) transformada não por delírios de omnipotência, mas pelo Deus que, por amor, se fez carne”.