
(Pe. Rui Ferreira, diretor da Revista Boa Nova)
«Recebestes de graça, dai de graça»
(Mt 10,8)
A missão é uma graça que se faz graça. Ao celebrar o centésimo aniversário do Dia Mundial das Missões, renovemos a consciência de que a missão é um dom gratuito de Deus que, ao ser acolhido, nos leva a dar de graça o que de graça recebemos. A graça da missão torna-se missão de graça, pois quem é colhido pela torrente da graça de Deus não pode ficar parado nem calar o que viu e ouviu.
Quero, neste Pórtico, partilhar a graça vivida numa recente viagem a Timor-Leste (Lorosa’e/Sol nascente). Já tinha feito uma experiência semelhante em Pemba, Cabo Delgado, Moçambique, onde os Missionários da Boa Nova, com D. José dos Santos Garcia, em 1957, preparam o terreno para uma Igreja jovem e cheia de vida. Agora tive a graça de a viver em Timor-Leste, onde os Missionários de Cernache do Bonjardim, precursores da Sociedade Missionária da Boa Nova (SMBN), revitalizaram a Igreja nas últimas décadas do séc. XIX e inícios do séc. XX.
A SMBN prepara-se para celebrar o seu primeiro centenário, em 1930. Porém, a raiz mais profunda do seu carisma e da sua história, está no Colégio das Missões Ultramarinas de Cernache do Bonjardim (1855), de onde partiram mais de três centenas de missionários para África e para o Oriente. O primeiro sacerdote formado em Cernache do Bonjardim foi o P. Jacob dos Reis Cunha, terceiro padre natural de Timor, enviado para esta ilha, em 1863.
Há, contudo, um grande missionário que deve ser recordado, D. António Joaquim de Medeiros, bispo de Macau (1884-1897). O P. Medeiros chegou a Macau, em 1872, e pouco depois foi enviado como Visitador a Timor. Voltou a Macau com um plano de evangelização, foi nomeado Vigário-geral da diocese e Superior das Missões da Timor. Em 1877, juntamente com o P. Medeiros, eram já 12 os Missionários de Cernache do Bonjardim em Timor. Em 1879, a seu pedido chegaram as Irmãs Canossianas. Através de um apostolado estruturado e inculturado (catequese, ensino primário e secundário, estudo das línguas locais, publicação da primeira gramática e dicionário Tétum-Português e de um catecismo) lançaram as bases para uma Igreja viva e jovem, onde hoje a fé é cultura. Prova disso mesmo, foram as recentes homenagens aos primeiros bispos de Díli: D. Jaime Garcia Goulart, D. José Joaquim Ribeiro, Monsenhor Martinho da Costa Lopes e D. Alberto Ricardo da Silva, em reconhecimento do seu legado pastoral e do seu contributo para a história de Timor-Leste. Os três primeiros eram portugueses! Os seus restos mortais foram trasladados de Portugal, recebidos em Timor com honras de Estado e sepultados na Catedral de Díli.
Quanto às Irmãs Canossianas, chamadas por D. António de Medeiros, em 1879, são hoje cerca 130 só em Timor-Leste, espalhadas por todo o país, onde exercem o apostolado da caridade através da educação e do cuidado dos mais necessitados. Têm ainda várias missionárias pelo mundo fora, como a Irmã Maria Lopes, com quem tive a graça de conhecer Timor, atualmente a trabalhar na Polónia. Por tudo isto, a missão é uma torrente de graça!


