PÓRTICO | Fraternidade: um ato de fé e amor universal

(Pe. Rui Ferreira, diretor da Revista Boa Nova)

«A fé leva o crente a ver no outro um irmão que se deve apoiar e amar. Da fé em Deus, que criou o universo, as criaturas e todos os seres humanos – iguais pela Sua Misericórdia –, o crente é chamado a expressar esta fraternidade humana, salvaguardando a criação e todo o universo e apoiando todas as pessoas, especialmente as mais necessitadas e pobres.»

(Documento de Abu Dhabi)

«Vós sois todos irmãos» (Mt 23, 8). É o próprio Senhor que o diz. E foi Ele mesmo o primeiro a dar o exemplo, ensinando-nos a rezar “Pai nosso” e oferecendo a Sua vida por todos. Porém, como em tudo o resto, Cristo não impõe a fraternidade por decreto, mas apela à nossa liberdade e à nossa fé para ver no outro um irmão que devemos respeitar e amar.

Num mundo dilacerado por inimizades e guerras fratricidas, o amor fraterno é como um bálsamo. Viver de forma concreta, no dia-a-dia, a fraternidade é um ato de fé em Cristo. O problema é que, muitas vezes, não levamos Jesus a sério (Albert Nolan). Amamos os nossos inimigos e rezamos pelos que nos perseguem? Perdoamos 70×7? Oferecemos a outra face? Partilhamos o que temos com os pobres? Hoje, é mais necessário do que nunca levar Jesus a sério e viver os seus ensinamentos. Estes, porém, só podem ser acolhidos e vividos com liberdade interior.

Ver o outro como irmão, independentemente do seu credo, da sua cultura, da cor da sua pele, da sua condição social, é, acima de tudo, um ato de fé. Como discípulos missionários, cada ser humano, e cada criatura, à maneira de S. Francisco de Assis é um irmão/irmã. Brotando do íntimo de cada um, a fraternidade universal deve ser vivida diariamente nos pequenos gestos, pois é através destes que a vida se altera e a fraternidade se realiza. 

No dia 3 de fevereiro, celebrou-se, no Convento de S. Francisco, em Coimbra, o 7º aniversário do Documento de Abu Dhabi sobre a Fraternidade Humana. Nesta iniciativa promovida pela Subcomissão para o Diálogo Inter-religioso da Conferência Episcopal Portuguesa, D. Armando Esteves Domingues, agradeceu a Deus por todos os homens e mulheres sem medo ao longo da história. Neste nosso século, que começou sob o signo do medo (11 de setembro de 2001), D. Armando desafiou-nos a ser homens e mulheres sem medo de abraçar. O medo manifesta-se na agressão, a coragem no abraço. Num momento em que ódio e agressão grassam, devemos ter a coragem de oferecer a outra face e o perdão. 

O dinamismo sinodal em curso na Igreja Católica visa também a fraternidade universal. A conclusão do Documento Final tem o seguinte título: “Um banquete para todos os povos” (nn. 152-155). Os trabalhos da Assembleia Sinodal foram inspirados pela imagem do banquete do profeta Isaías, “símbolo de convívio e comunhão, destinada a todos os povos (cf. Is 25,6-8)”. Uma Igreja sinodal “torna-se profecia social, inspira novos caminhos também para a política e a economia, colabora com todos aqueles que acreditam na fraternidade e na paz, num intercâmbio de dons com o mundo”. 

E conclui afirmando que “o sentido último da sinodalidade é o testemunho que a Igreja é chamada a dar de Deus, Pai e Filho e Espírito Santo, Harmonia do amor que se derrama fora de si mesma para se dar ao mundo. Caminhando em estilo sinodal, no entrelaçamento das nossas vocações, carismas e ministérios, e, indo ao encontro de todos para levar a alegria do Evangelho, podemos viver a comunhão que salva: com Deus, com toda a humanidade e com toda a criação. Desta forma, graças à partilha, começaremos já a experimentar o banquete da vida que Deus oferece a todos os povos”. Boa missão!