Quando a missão não convence nem se expande, mas converte: Pensando o futuro da SMBN a partir do Japão

Padres Nuno Lima (esquerda), Hipólito Vida (centro) e Tiago Tomás (direita): “Pensar a missão a partir do Japão é, inevitavelmente, deixar-se questionar”.

(Grupo da SMBN no Japão) – Os Missionários da Boa Nova estão, desde 1998, no Japão. É um pequeno grupo, uma pequena semente, que procura com humildade ser fecunda.  Partilhamos o contributo do Grupo do Japão (padres Hipólito Vida, Nuno Lima e Tiago Tomás) em espírito de discernimento para a XV Assembleia Geral da SMBN, que se realizará a partir de 13 de julho no Seminário das Missões, em Cucujães. 

No Japão, as estações não passam despercebidas. A primavera chega com a delicadeza das flores de cerejeira, quase tímida, ensinando-nos que a beleza é breve e deve ser acolhida com gratidão. O outono, por sua vez, cobre as montanhas de Shikoku com tons quentes e silenciosos, convidando à contemplação e ao recolhimento. É neste ritmo, onde nada é abrupto e tudo amadurece lentamente, que a missão da SMBN no Japão se vai pensando, rezando e vivendo.

Este texto nasce desse chão. Não pretende ser uma tomada de posição oficial, mas um exercício de consciência comunitária, uma palavra partilhada em espírito sinodal, oferecida à XV Assembleia Geral como interpelação fraterna. Pensar a missão a partir do Japão é, inevitavelmente, deixar-se questionar.

O Japão como lugar de escuta e purificação da missão

Ser missionário no Japão é aprender a escutar antes de falar. Num país onde o cristianismo permanece quase invisível, a fé não se impõe; ela é sugerida pela presença, pela coerência de vida, pela paciência que aceita não ver resultados imediatos. Aqui, a missão raramente se mede em números. Mede-se em relações, em confiança conquistada, em sementes lançadas no silêncio.

Este contexto obriga-nos a um exame de consciência: estamos preparados para uma missão onde o êxito não é visível, onde o reconhecimento é raro e onde a fidelidade quotidiana vale mais do que a eficácia imediata?

Talvez o Japão nos ajude a purificar uma certa tentação funcionalista da missão e a regressar ao essencial: estar, acompanhar, caminhar com.

Entre Budismo, Xintoísmo e Evangelho: a missão como diálogo

“Através da educação, constroem-se pontes, gera-se confiança, transmite-se um humanismo profundamente evangélico”. O Pe. Hipólito Vida, na foto, é o atual Responsável do Grupo de Japão.

O Japão não é um território vazio de espiritualidade. Pelo contrário, é um espaço saturado de símbolos, ritos e uma sabedoria milenar que molda o coração do povo. O budismo ensina o silêncio e a impermanência; o xintoísmo, o respeito pela natureza e pelos antepassados. Neste contexto, o anúncio cristão não pode ser agressivo nem defensivo. Ele é chamado a ser diálogo, hospitalidade espiritual, reconhecimento do outro.

Aqui, a missão da SMBN confronta-se com uma pergunta essencial: sabemos anunciar Cristo sem negar a riqueza espiritual que já habita este povo?

O diálogo inter-religioso deixa de ser um apêndice da missão para se tornar um dos seus rostos mais autênticos. Talvez seja tempo de reconhecê-lo mais claramente como dimensão constitutiva do nosso modo de missionar.

Da periferia nasce uma proposta para a Ásia

O Japão, apesar de ser uma presença minoritária no mapa da SMBN, aponta para um horizonte mais amplo: o da Ásia como lugar de futuro. Este continente é jovem, plural, inquieto e profundamente espiritual.

A partir da experiência japonesa, surge uma proposta para discernir e pensar o alargamento da nossa presença na Ásia. Não se trata apenas de expandir presença, mas de enraizar a missão, tornando-a mais intercultural.

Este passo exige coragem e conversão de mentalidade: estamos dispostos a deixar que a Sociedade Missionária tenha também um rosto asiático?

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