
(Pe. Abdul Vianel, Missionário da Boa Nova em Moçambique) – Abdul Vianel é um jovem padre da Sociedade Missionária, natural de Malema (Nampula), atualmente a trabalhar no Seminário da Boa Nova na Matola, periferia de Maputo. O Pe. Abdul fala-nos do impacto do Jubileu da Esperança em Moçambique, nos 50 anos da independência da “Pérola do Índico”. Diante dos grandes tumultos vividos há um ano, após as Eleições Gerais de 9 de outubro de 2024, e da grave situação social que o país atravessa, sente-se invadido por sentimentos mistos. Porém, com esperança e fé, acredita na grande resiliência do seu povo, que já provou que é capaz de superar enormes dificuldades.
Não sei se devo alegrar-me pelos 50 anos da independência, ou entristecer-me pela nova realidade vivida num país como Moçambique, no pós-independência. Os que viveram, (ou vivem) em carne e osso, é que poderão definir se vale a pena ou não celebrar. Apenas digo o seguinte: Moçambique é a minha pátria muito amada e consagro todas as suas dificuldades ao Sagrado Coração de Jesus e de Maria.
A República de Moçambique é um estado de direito, baseado no pluralismo de expressão, na organização política democrática, no respeito e na garantia dos direitos e liberdades fundamentais do homem, mesmo que isso não se coloque em prática. O seu território é uno, indivisível, abrangendo toda a sua superfície terrestre, a zona marítima e o espaço aéreo delimitado pelas fronteiras nacionais.
Politicamente, Moçambique sofreu muitas influências e, ao longo dos tempos, passou por várias transformações. Antes da dominação portuguesa e da chegada dos primeiros missionários, chamava-se Império Mutapa (ou Monomotapa). Com a independência, proclamada em 25 de junho de 1975, o povo moçambicano ganhou a liberdade da escolha dos seus governantes através de eleições. A história da evangelização de Moçambique está intimamente ligada à colonização portuguesa.
Em conversa com um amigo, o padre Jerónimo, dos Missionários da Boa Nova, confessou o seguinte: “Em Mutuáli me disseram: aqui já passaram os Ngunis; eles foram embora e nós continuamos aqui. Vieram os portugueses, houve guerra e nós ficámos. Agora veio a FRELIMO e também se irá embora e nós ficaremos (…). Depois da FRELIMO já vieram outras guerras e sofrimentos”.
Eu sei que o povo moçambicano é muito forte e já aguentou muitas guerras. As consequências são ainda visíveis nos nossos dias, quando se encontram revoltas e resistências das populações, mesmo quando a Igreja, em obediência ao mandato de Cristo, se coloca ao serviço da sociedade. O Papa Francisco, ao falar da evangelização, dizia que devemos viver e transmitir a alegria do Evangelho. Nessa linha, podemos perceber que a alegria de evangelizar deve encher o coração do homem e o coração daqueles que se encontram com Jesus e se deixam salvar por Ele (cf. EG 1).
Perante a realidade que o povo viveu no último milénio, e principalmente nos últimos anos por causa da desigualdade social em que muitos eram deixados à margem, refletir sobre a esperança no Ano Santo é uma tentativa de gritar no meio de uma sociedade cercada pelo poder estatal e que pouco se importa com o próximo. Embora tudo pareça arruinado, há uma potência interior que não permite ao ser humano desistir de si mesmo nem dos outros. Ela recobra a energia do perdão, o ânimo para não desistir, a confiança nas pessoas, a amizade que ficou ameaçada, a fidelidade a uma causa nobre. Assim sendo, a Igreja em Moçambique vê-se obrigada a dar o seu contributo em torno de várias questões sociais.
O Jubileu da Esperança tem profundas implicações missionárias. O incentivo à renovação da fé, a ação social e o testemunho da esperança no mundo, torna-se o cume deste Ano Jubilar. Isso leva-nos a perceber que o tema “Peregrinos da Esperança” convida à reflexão sobre a misericórdia, a solidariedade e a construção de um mundo mais justo, através de peregrinações, orações e ações concretas.

No meio de todos os desafios, o Ano Santo de 2025, em Moçambique, é vivido como um tempo de esperança, reconciliação e renovação espiritual, especialmente com a crise pós-eleitoral de 9 de outubro de 2024. É neste contexto, que a Igreja Católica moçambicana celebra este Ano Jubilar com iniciativas de animação missionária, peregrinações e momentos de oração, visando fortalecer a unidade nacional, a paz e o desenvolvimento sustentável, pois, a esperança transforma as cinzas em fênix, a cruz em sinal de vida, as lágrimas em vitória.
A esperança é a última que morre, diz o jargão popular. Ela é desprezada pelos pessimistas, ameaçada pelos gananciosos, agredida pelos incrédulos. Da esperança tudo renasce, ainda que pareça impossível recomeçar. Por isso, o Jubileu da Esperança é uma oportunidade para a Igreja Católica em Moçambique reafirmar sua missão de anunciar a esperança e promover a justiça, a paz e a solidariedade no mundo, através da renovação da fé e do testemunho concreto do amor de Deus.
Na vivência desse Jubileu, as implicações vão mais além e são significativas para a missão em Moçambique, principalmente no contexto da reconciliação e do desenvolvimento do País: a ação que promova a justiça social concreta e a dignidade humana; compromisso com a paz. Ajudar os jovens a envolverem-se ativamente nas atividades jubilares e a participação nas peregrinações e nas Indulgências, torna-se um imperativo eclesial.
A Igreja Católica também reconhece a importância de investir na formação de jovens, tornando-os protagonistas da esperança e da renovação. Nessa linha, o Jubileu oferece uma oportunidade para aprofundar a missão de levar esperança e amor aos mais necessitados, combatendo a insegurança e o sofrimento. A Igreja vê a celebração do Jubileu como um momento crucial para construir uma nova era sobre os pilares da fraternidade e da paz, a partir da reconciliação. Procura apostar e promover a cultura da paz e os valores da justiça, reconciliação e solidariedade; “educação e formação”, pois a educação desempenha um papel central na construção da justiça, da paz e da reconciliação. Busca também inspirar um senso de esperança renovada e um compromisso com o futuro do País, mesmo diante dos desafios do dia-a-dia. Para tal, é preciso uma vivência da esperança em todas as dimensões da vida, tanto para os missionários como para os fiéis.
A missão, vista como fonte de esperança, é fundamental para o desenvolvimento do País. Por isso, os missionários, ao levarem a Boa Nova, proporcionam às pessoas a oportunidade de encontrar Jesus Cristo, fonte de esperança. A missão, neste contexto, torna-se um meio para promover a vida plena e a alegria nas comunidades, superando as dificuldades e as desigualdades. É nessa linha que podemos afirmar que o Jubileu é um tempo de peregrinação, com igrejas jubilares, oferecendo a oportunidade de obter indulgências como parte da tradição jubilar.
O Jubileu da Esperança, portanto, é um tempo para a Igreja Católica em Moçambique reafirmar o seu compromisso com a missão evangelizadora, promovendo a reconciliação, a paz, o desenvolvimento e a esperança em todas as dimensões da sociedade moçambicana. É viver a vida em fraternidade, onde todos se sintam valorizados, com os mesmos direitos e oportunidades; é ocasião de profunda reflexão, renovação espiritual e celebração da esperança, com iniciativas que visam a reconciliação, a unidade e o desenvolvimento, num contexto de desafios sociais e políticos.


