(Pe. Adelino Ascenso, Superior Geral da SM Boa Nova) – Rumo ao seu centenário (2030), os Missionários da Boa Nova, em 2026, celebram o Ano da Justiça – «Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados». Bem-aventurado significa feliz. No caso desta Bem-aventurança, felizes são aqueles que lutam por um mundo mais justo e fraterno, porque só quando houver justiça para todos haverá paz e todos serão saciados. Peçamos pão para quem tem fome e fome de justiça para quem tem pão.

António Guterres, secretário-geral da Organização das Nações Unidas desde 2017, no seu significativo discurso na Assembleia Global da Amnistia Internacional, em julho de 2025, evocava a génese da Amnistia Internacional: o advogado britânico Peter Benenson (1921-2005), ao ler, no jornal, em 1960, a notícia de que em Portugal dois estudantes tinham sido presos por fazerem um brinde à liberdade, ficou tão indignado com tal injustiça, que lançou um movimento global, e assim nasceria a Amnistia Internacional. Guterres sublinhou, no seu discurso, que forças poderosas se levantam contra os direitos humanos e que a manipulação nas redes sociais se tornou uma arma poderosa do autoritarismo.
Os indicadores económicos e as injustiças sociais deixam-nos num doloroso estado de impotência. O enorme fluxo de migração dos povos; aqueles que se lançam ao caminho, sujeitos à exploração de traficantes sem escrúpulos, numa aventura que, muitas vezes, transforma o caminho em cemitério; aqueles que buscam uma migalha de humanidade no meio das suas vidas dilaceradas. Tudo isso, fruto de injustiças e de guerras, de repressões, de alterações climáticas e de desequilíbrios sociais. Direitos que são espezinhados e a lei do mais forte a prevalecer; derrocada da democracia, que é sistematicamente atacada por adeptos da não-verdade ou da pós-verdade.
Terminou, no Brasil, a Cimeira do Clima COP30 (10 a 21 de novembro de 2025). O cardeal Leonardo Ulrich Steiner, numa mesa-redonda que teve lugar a 17 de novembro, dizia: «Nós queremos justiça, porque a justiça é que pode garantir uma harmonia maior na casa comum. Talvez quando tivermos maior justiça quanto à questão do meio ambiente, certamente teremos uma casa que será comum». A Cimeira terminou e os resultados ficaram aquém do desejado, já que não se chegou a um acordo sobre um roteiro em vista à abolição dos combustíveis fósseis.
Escutar o grito dos pobres
Neste mundo repleto de desigualdades, anseia-se por verdadeira justiça, com uma equitativa distribuição de bens e oportunidades. No meio de tantas trevas e de ataques sistemáticos aos direitos humanos, diante da indiferença apática de muitos governantes, é urgente que continue a trabalhar-se com firmeza para a construção de uma genuína reconciliação: connosco mesmos, com os outros, com a Natureza e com Deus.

Temos a missão de acendermos uma vela que alumie o caminho daqueles que são desprezados, perseguidos, ignorados ou discriminados. Há perguntas perturbadoras que nos ferem como punhais, tal como – ouvi um dia alguém dizer – era perturbadora a centralidade que o Papa Francisco colocava no pobre concreto, estabelecendo o Dia Mundial dos Pobres, o qual se celebra, desde 2017, precisamente no domingo anterior à Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo. E isto é muito significativo. O pobre e o rei: o pobre que é rei e o rei que é pobre.
O título da mensagem do Papa para o nono Dia Mundial dos Pobres (2025) é: «Tu és a minha esperança», uma passagem do Salmo 71. «O pobre pode tornar-se testemunha de uma esperança forte e confiável, precisamente porque professada numa condição de vida precária, feita de privações, fragilidade e marginalização», escreve o Papa na sua Mensagem. Os pobres devem estar no centro de toda a ação pastoral; eles são para nós exemplos de perseverança na sua sede e fome de justiça. Dizia, ainda, o Papa Leão XIV, na sua homilia de 16 de novembro, na Basílica de São Pedro repleta de pessoas em situação de rua, pobreza e discriminação social: «Exorto os chefes de Estado e os responsáveis das nações a escutar o grito dos pobres».
De que justiça se fala?
«Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados» (Mt 5,6). Estamos na quarta bem-aventurança. De que justiça se fala? «A justiça é, antes de mais, uma qualidade divina, que a Bíblia canta com frequência», diz-nos Jacques Philippe na sua obra A Felicidade onde não esperamos encontrá-la. O homem justo é aquele que está em comunhão com Deus. Se a justiça equivale à santidade, fome e sede de justiça são um premente desejo de santidade. A Sagrada Escritura é muito profícua no que diz respeito a textos que colocam em relação profunda a comunhão com Deus e a relação de justiça com o próximo, tais como o capítulo 25 do Evangelho segundo Mateus, onde são avaliadas as nossas ações, assim como as nossas omissões. De facto, a relação com Deus terá de concretizar-se em atos de amor e justiça para com o outro; de contrário, as nossas palavras não passarão de um fabular ocioso e impostor.
Assim, por aquilo que foi dito no parágrafo anterior, facilmente se entenderá que a fome e a sede de justiça estão intrinsecamente unidas a um desejo de conversão e de transformação interior, em vista à comunhão com os projetos do próprio Deus. Tal desejo de conversão implica um grande amor à verdade; e isso pressupõe a pobreza de coração de que fala a primeira bem-aventurança do evangelho de Mateus (5,3). Só a humildade para aceitar a verdade nos torna livres, sendo o orgulho uma das principais causas de cegueira.
Sede e fome do divino
«Ó Deus, tu és o meu Deus, eu te procuro./ Minha alma tem sede de ti,/ minha carne te deseja com ardor,/ como terra seca, esgotada, sem água» (Sl 63,2). Estas palavras do salmo 63 são bem reveladoras da inquietação que habita o nosso coração e que levou Santo Agostinho a desabafar, nas suas Confissões: «Vós (…) nos criastes para Vós e o nosso coração vive inquieto, enquanto não repousa em Vós» (Confissões, 1,1). Há uma sede interior, uma fome interior, uma inquietação, um sentido de incompletude, uma busca. Uma fome de divino que se encontra em cada coração: «até na pessoa mais corrupta e afastada do bem, está escondido um anseio de luz; mesmo que esteja sob escombros de engano e erro, há sempre uma sede de verdade e bondade, que é a sede de Deus» (Papa Francisco).
Adesão a uma vida de luz
A bem-aventurança fala de fome e sede, mas podemos colocar-nos, a nós próprios, a pergunta: qual é o meu desejo mais profundo? Vi, na minha juventude, um filme que me impressionou pela banalidade da expressão de um dos protagonistas, que dizia, a certa altura: «todos queremos ser felizes». A questão é quando nos interrogamos sobre o que significa «ser feliz». O Salmo 86, no versículo 11, dá-nos uma resposta: «Ensina-me, Senhor, os teus caminhos e caminharei segundo a tua verdade. Unifica o meu coração para temer o teu nome» (Sl 86,11). Este deverá ser o desejo unificador, que se fortalecerá por meio da oração; e a oração terá de ser alimentada. Muitas vezes, depois do fogo inicial, acabamos por acomodar-nos e contentar-nos com um quotidiano medíocre, onde o verdadeiro desejo, a sede e a fome são substituídos por um desconcertante desânimo e uma opaca desilusão. Precisa-se de uma purificação do desejo: no seu objeto e no seu fundamento. Mas não temamos a aridez na nossa vida espiritual, pois «essa experiência de pobreza purifica o desejo, fundamentando-o unicamente em Deus», diz-nos Jacques Philippe no livro já citado acima.
O esforço pela justiça é manancial de equilíbrio e felicidade interior. A fome e a sede de justiça é adesão a uma vida de luz, para a qual esta bem-aventurança é um convite.


