(Carla Rodrigues, Secretária de Estado Adjunta e da Juventude e da Igualdade) – Carla Rodrigues, natural de Cucujães, é atualmente Secretária de Estado Adjunta e da Juventude e da Igualdade. É uma mulher cristã na política, formada em Direito, que busca viver a política como vocação ao serviço do bem-comum e expressão concreta de caridade. No passado dia 9 de maio, proferiu uma conferência sobre a bem-aventurança da fome e sede de justiça no Seminário das Missões, no contexto da celebração do centenário da SMBN e da apresentação de dois livros do Pe. Artur de Matos (ver páginas 36-37).

«Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos céus.
Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra.
Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.
Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.
Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus.
Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus.
Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça, porque deles é o Reino dos céus.
Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa, vos insultarem, vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal de vós. Alegrai-vos e exultai, pois é grande nos céus a vossa recompensa». (Mt. 5, 3-12)
O Sermão da Montanha, proferido no, agora chamado, Monte das Bem Aventuranças, é profundamente belo, pleno de esperança e de propósito. Dá um sentido ao sofrimento, à virtude, ao bem, ao serviço, à justiça. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça. Jesus não disse bem-aventurados os que procuram a justiça, ou os que a desejam ou os que dela precisam. Jesus falou dos que têm fome e sede de justiça.
Fome e sede são necessidades básicas, primárias, dizem respeito à sobrevivência. Não se trata, portanto, de um desejo genérico, mas de uma exigência vital e quotidiana, indispensável à sobrevivência, como comer e beber.
Como disse o Papa Francisco: “Mas o que significa ter fome e sede de justiça? Não estamos certamente falando daqueles que querem vingança, antes, na bem-aventurança precedente falamos de mansidão. Certamente as injustiças ferem a humanidade; a sociedade humana tem urgência de equidade, de verdade e de justiça social; recordamos que o mal sofrido das mulheres e dos homens no mundo chega até o coração de Deus Pai. Quem não sofreria pela dor de seus filhos?”
Mas o que é a justiça? A palavra justiça aparece entre 400 a 500 vezes na Bíblia, dependendo das traduções, tal é a sua centralidade. Jesus, mostra-nos o que é a justiça. Quebra padrões. Não rasga a lei de Moisés, mas aperfeiçoa-a, introduzindo-lhe compaixão, amor e misericórdia.
Na passagem da Mulher Adúltera (João 8, 1-11): Líderes queriam apedrejá-la. Jesus expôs a hipocrisia deles e libertou-a da condenação, trazendo uma justiça que restaura em vez de apenas punir.
Na Expulsão dos vendilhões do Templo (Mateus 21, 12-13): Jesus agiu com “zelo justiceiro” ao expulsar aqueles que exploravam os fiéis dentro do Templo, transformando a casa de Deus num mercado.
Na Parábola do Juiz Iníquo (Lucas 18, 1-8): Jesus ensina que Deus, ao contrário de um juiz humano corrupto, fará justiça depressa aos Seus escolhidos que clamam por Ele.
No encontro com Zaqueu (Lucas 19, 1-10): Jesus levou a justiça ao coração de Zaqueu. Um cobrador de impostos, que estava ao serviço de Roma e roubava o povo, imediatamente disse: “se prejudiquei alguém, vou devolver quatro vezes mais”.

resposta noutra bem-aventurança: sofrer perseguição por amor da justiça.
No encontro com a Samaritana (Jo 4, 5-42): Jesus sentou-se na beira do poço e falou com uma mulher. Conversaram longamente sobre a água da vida e sobre a vida daquela mulher que além de samaritana, não tinha boa reputação. Jesus elevou-a ao estatuto de pessoa e deu-lhe a dignidade que ela nunca teve aos olhos dos homens do seu tempo. Os discípulos ficaram espantados com aquela atitude, mas já estavam habituados às atitudes revolucionárias de Jesus. Jesus foi o primeiro homem a tratar uma mulher como igual, com o respeito e dignidade que ela merece. Jesus fez justiça à condição feminina.
Esta era a justiça de Jesus.
A justiça como virtude cardeal ao lado da prudência, fortaleza e temperança — os pilares morais fundamentais da ética clássica e cristã, agindo como “dobradiças” (cardeal vem do latim cardo) sobre as quais gira uma vida equilibrada e virtuosa. Elas orientam a razão e a conduta para o bem, sendo adquiridas pelo esforço e hábito. A justiça é um dos pilares morais fundamentais da ética clássica e cristã.
Mas o que é a justiça humana? Aprendi no curso de Direito que Justiça é a constante e perpétua vontade de dar a cada um aquilo que é seu. Dar a cada um o que lhe falta, o que lhe foi tirado, o sustento, a dignidade, a pátria, a segurança, o respeito, a igualdade…
Quem tem fome e sede de justiça, hoje?
- os pobres,
- os refugiados,
- os imigrantes,
- as vítimas de violência doméstica,
- as vítimas de tráfico de seres humanos,
- as vítimas de crimes de ódio,
- as pessoas discriminadas em função da sua raça, sexo, orientação sexual, identidade de género…
- as crianças institucionalizadas que esperam uma família,
- os idosos abandonados pelos seus filhos, pela sociedade
- …são as mulheres adúlteras de hoje, as samaritanas de hoje, os espoliados de Zaqueu de hoje, as vítimas dos juízes iníquos de hoje, os fiéis explorados no templo…
Precisam de justiça como de pão para a boca.
Há também injustiças menos visíveis, mas igualmente reais: a humilhação silenciosa, a falta de reconhecimento, a mentira que destrói reputações, a burocracia que esmaga, a corrupção que retira confiança às instituições, a ausência de escuta ou de cuidado e e atenção para com o outro.
Perante esta fome e sede de justiça, a atitude a tomar está noutra bem-aventurança.
“Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça, porque deles é o Reino dos céus.”
Não calar. Não desviar o olhar. Agir. Ajudar, socorrer, denunciar. Mesmo que isso nos faça alvo de perseguição. Mais do que ser justos, devemos amar a justiça. Quem tem responsabilidades acrescidas pelas funções públicas que desempenha, tem também obrigações acrescidas. Esse é talvez o fim último da ação política: dar a cada um aquilo que é seu. Por amor à justiça.
- aos pobres, auxílio,
- aos refugiados, asilo,
- aos imigrantes, acolhimento,
- às vítimas de violência doméstica, proteção,
- às vítimas de tráfico de seres humanos, segurança,
- às vítimas de crimes de ódio, respeito,
- às pessoas discriminadas em função da sua raça, sexo, orientação sexual, identidade de género, dignidade,
- às crianças institucionalizadas que esperam uma família, colo,
- aos idosos abandonados pelos seus filhos e pela sociedade, conforto.
Na encíclica Fratelli Tutti (2020), o Papa Francisco recupera uma ideia clássica da doutrina social da Igreja e desenvolve-a: a política pode e deve ser uma forma elevada de caridade, isto é, uma expressão concreta do amor ao próximo. Ele insiste que não se deve desprezar a política nem reduzi-la a corrupção ou jogo de interesses. Pelo contrário, há necessidade de uma política melhor, que seja orientada pelo bem comum e não subordinada à economia ou a interesses ideológicos, uma política capaz de promover a dignidade humana, o trabalho, a inclusão e a justiça social, vivida como um serviço aos outros. Uma política justa, capaz de dar a cada um aquilo que é seu. Estar na política, com o coração no sítio certo, é confiar na justiça das Bem-Aventuranças, e amá-la.


