[MEMORIAL]: Beneditinos em Cucujães, precursores da SMBN

Brasão da Ordem de S. Bento. Autor desconhecido, pedra de granito, séc. XVII. Foto: SMBN − Seminário das Missões de Cucujães

(Eva Dias) – A presença dos Padres Seculares Portugueses em Cucujães, mais tarde integrados na Sociedade Portuguesa das Missões Católicas Ultramarinas − hoje Sociedade Missionária da Boa Nova − deveu-se à ação benemérita do Padre José Vicente do Sacramento (1868-1933). Formado no Colégio das Missões de Cernache do Bonjardim e missionário em Moçambique, conhecia a necessidade de D. Teotónio Vieira de Castro (1859-1940), bispo de Meliapor, Procurador-Geral das Missões Religiosas e Superior do Colégio das Missões de Tomar, de encontrar um novo espaço de formação. Assim, em 26 de agosto de 1923, adquiriu o edifício e terrenos do antigo mosteiro beneditino de S. Martinho de Cucujães, doando-os a D. Teotónio. Desde outubro desse ano, o conjunto passou a funcionar como Seminário das Missões.

A história do mosteiro beneditino de Cucujães está intimamente ligada à vila e às suas gentes. Fundado por D. Egas Odoriz, patrono e possível infanção de Terras de Santa Maria, desempenhou um papel político relevante na fundação de Portugal, acolhendo D. Afonso Henriques, ainda infante, a caminho da batalha de Ourique. Tal gesto valeu-lhe a Carta de Couto, outorgada em 7 de julho de 1139, que conferiu ao abade poderes paroquiais, administrativos e judiciais sobre o território, elevando-o a vila. Com autonomia face às leis gerais do reino e revertendo os impostos para o mosteiro, Cucujães prosperou económica e socialmente, atraindo colonos. O privilégio foi confirmado por vários monarcas até à sua extinção, decretada por D. Maria I, em 1790.

A passagem dos séculos manifestou-se igualmente na alteração da fisionomia dos espaços. Do conjunto medieval, sem vestígios visíveis, surgiu no início do século XVII uma arquitetura chã, integrada na Congregação de S. Bento de Portugal (1566-1834), fruto da renovação tridentina. O mosteiro manteve-se praticamente inalterado até à década de 1920, exceto a fachada da igreja, renovada em finais do século XVIII.

Armas da Vila de Cucujães, aprovadas em sessão de 30 de novembro de 1927 da secção de Heráldica da Associação dos Arqueólogos Portugueses, que perpetuam a memória da fundação da vila pelos beneditinos, através do leão com o báculo abacial, elemento iconográfico herdado do brasão da Ordem de S. Bento. Foto: Arquivo SMBN − Seminário das Missões de Cucujães

A extinção das ordens religiosas em Portugal, em 1834, levou ao encerramento compulsivo do mosteiro e à dispersão dos monges. A igreja passou para administração paroquial, enquanto o edifício e a cerca foram vendidos em hasta pública. Entre 1837 e 1875, esteve na posse de particulares, designando-se por Quinta da Boa Vista. Aqui nasceu António Joaquim Ferreira da Silva (1853-1923), eminente cientista, professor de Química na Universidade do Porto e primeiro presidente da Sociedade Portuguesa de Química.

Em 1876, Frei João de Santa Gertrudes, monge beneditino regressado do Brasil, adquiriu o edifício, restaurando a Ordem de S. Bento em Portugal. O mosteiro ascendeu a priorado e, em 1888, a abadia, sob tutela da Arquiabadia de Beuron (Alemanha). De Cucujães partiram, em 1892, os primeiros monges para fundar o mosteiro de Singeverga, em Roriz (Santo Tirso), comunidade ainda ativa. Contudo, com a implantação da República em 1910, o mosteiro foi definitivamente extinto.

Durante treze anos, o vetusto edifício ficou votado ao silêncio e ao abandono, até ser resgatado pelo P. José Vicente do Sacramento. Os Padres Seculares Portugueses, precursores dos Missionários da Boa Nova, tornaram-se seus herdeiros e continuadores. A missão de evangelização, antes centrada no território nacional, ganhou continuidade além-fronteiras, em territórios ultramarinos. Deste modo, os Missionários da Boa Nova custodiam a bela memória da ligação histórica entre o mosteiro de S. Martinho de Cucujães, a vila e as suas gentes, o único antigo mosteiro beneditino em Portugal ainda pertencente à Igreja Católica.