[MEMORIAL]: Rádio Missões

 Primeira emissão da Rádio Missões, O Missionário Católico, janeiro de 1940.

(Pe. Jerónimo Nunes) – Em 1930, o Seminário de Cucujães recebeu um grupo de jovens vindos do Seminário de Tomar que queriam ser missionários, antes mesmo da instituição canónica da Sociedade Portuguesa das Missões Católicas pelo Papa Pio XI, em 1932.

Naquele tempo não havia faculdades de Teologia. Assim que atingiam os estudos de Teologia, os jovens eram encaminhados para um seminário menor, onde cuidavam dos alunos adolescentes e andavam de livro debaixo do braço para estudar. Nas horas vagas, procuravam um sacerdote que lhes tirava as dúvidas e orientava os estudos. Preparavam-se para serem missionários com os livros e com a prática. A avaliar pelo resultado, o método foi muito eficaz. Foram estes os primeiros missionários enviados em missão, os redatores d’O Missionário Católico e da Cruzada Missionária, ou chamados para a direção dos seminários da Sociedade Missionária.

Eis um exemplo. Em 1940, a maioria dos portugueses não conhecia a rádio, não tinha sequer eletricidade. Mas no Seminário de Cucujães fundou-se a Rádio Missões. Chegava a todos os cantos do país, não através das ondas hertzianas, mas pela revista O Missionário Católico. Em cada mês, uma conversa com os radiófilos, fossem crianças ou adultos. O inventor e repórter era Frei Luís de Santo Tirso, um padre recém-ordenado, nascido em Burgães, Santo Tirso. Era o pseudónimo do Pe. Luís Gonçalves Monteiro, ordenado em 23-09-1939. Com 24 anos, era um homem experiente, cheio de humor e tão competente que, no mês da ordenação, sonhou com a Rádio Missões. No Missionário Católico de janeiro de 1940 saiu o solene anúncio: «Adveniat Regnum Tuum. Atenção, senhores radiófilos. Resolveu o ilustre Director da “Rádio Missões”, Cucujãis, radiar mensalmente dos estúdios da nossa Estação Emissora uma pequena palestra missionária, dedicada especialmente à gente moça de Portugal». A palestra era uma conversa amigável sobre «o Menino Jesus, missionário pequenino, […] de uma sublimidade e transcendência incomparáveis». Convidou os jovens a ouvir «a voz meiga de Jesus» e a segui-lo com amor e generosidade. E terminou com a humorada frase: «Enquanto não dispusermos duma Estação Rádio-Emissora, as nossas “palestras radiofónicas” serão impressas» (ano XVII, n.º 189, jan. 1940, p.3).

O serviço radiofónico manteve-se, mesmo depois que Frei Luís embarcou para Moçambique, em 25 de novembro de 1942. Em janeiro do ano seguinte, a emissão foi assegurada por um «íntimo amigo de Frei Luís de Santo Tirso» que descreveu com detalhe a viagem do missionário. Em fevereiro, a emissão ainda foi feita a partir de Cucujães, assegurada pelo Pe. Domingos Marques Vaz, até que em março, a emissora muda de instalações: Rádio Missões – Moçambique. Nos meses seguintes, o locutor deteve-se sobre etapas da viagem e, na emissão de junho, Frei Luís descreve já Moçambique e clama por orações: «amigos, não quereis ser vós êsses anjos consoladores e vivificadores dos pobres missionários nas horas sombrias do seu apostolado? […]» (ano XX, n.º 227, jun. 1943, p.82). Frei Luís emitiu a partir de Moçambique até fevereiro de 1946. Crescendo o trabalho e a dificuldade do correio para Portugal, a Rádio Missões – Moçambique foi encerrada, sem aviso prévio aos ouvintes. 

A Rádio Missões voltaria a emitir em janeiro de 1947, novamente a partir de Cucujães, agora com Frei José de Santa Catarina, que assegurou as emissões até março. Após o interregno de alguns meses, em dezembro de 1947, a Rádio Missões voltava à “antena”, com Pedro Correia, a assegurar a emissão mensal até ao encerramento definitivo da emissora, em janeiro de 1950.