Pe. Adelino Ascenso, Superior-Geral da SMBN: «O missionário nunca pode ser superficial, tem de beber do sumo da interioridade»

(Pe. Rui Ferreira) – O Pe. Adelino Ascenso, 12.º superior-geral da Sociedade Missionária da Boa Nova (SMBN), foi ordenado sacerdote a 21 de fevereiro de 1998, em Leiria. Poucos dias depois, a 10 de março, partiu em missão para o Japão, como pioneiro dos Missionários da Boa Nova no país do Sol Nascente. Após 15 anos no Japão, foi eleito superior-geral em 2014, tendo sido reeleito em 2018, e, de novo, em 2022 para um terceiro mandato, algo inédito na história da SMBN.

Foto: Agência ECCLESIA/PR

Nas vésperas da XV Assembleia Geral, falámos com o padre Adelino Ascenso sobre o seu longo mandato e sobre como viu a evolução da Sociedade Missionária, da Igreja e da Missão ao longo destes anos. Falou-nos ainda a sua perspetiva acerca do futuro da SMBN rumo ao seu centenário (2030), como ponto de partida para novos horizontes.

De missionário no Japão a superior-geral

Pe. Rui Ferreira (RF): Em 2014, estava no Japão desde 1998, com um período de interregno (2004-2008) para fazer um doutoramento, em Roma, sobre o pensamento teológico na obra de Shusaku Endo, escritor japonês católico, autor de Silêncio, adaptado para o cinema por Martin Scorsese, em 2016. A eleição para superior-geral da SMBN foi uma surpresa?

Pe. Adelino Ascenso (AA): Já é lugar-comum dizer-se que é uma surpresa, mas foi uma surpresa que me obrigou a afinar melhor as minhas promessas de ordenação. É uma questão de coerência. Foi uma surpresa que me obrigou a sair do Japão, onde tinha começado um trabalho novo, especialmente no campo académico. Mas fui eleito e vim para Portugal com todo o empenho. Porém, o arcebispo de Osaka, pediu-me se podia ficar até a Páscoa do ano seguinte, de modo que durante oito meses viajei todos os meses entre Portugal e o Japão, porque continuava com o trabalho no Japão e estava a começar aqui a minha função como superior-geral. Foi um tempo muito cansativo, mas também muito enriquecedor. Tive de coordenar o trabalho em Osaka e descobrir aquilo que se esperava de mim como superior-geral da SMBN.

RF: Além da coerência e disponibilidade interior, como acolheu a eleição?

AA: Acolhi no início quase como um choque, porque isto é muito humano: nós estamos num lugar, afeiçoamo-nos ao lugar, ganhamos raízes, temos o nosso ambiente. E, como disse, estava a começar um trabalho novo no campo académico, dando muitos seminários sobre a teologia na obra de Shusaku Endo. E foi quando me cortaram as raízes que estava a aprofundar no Japão. Mas isto obriga-nos sempre – eisso é um apelo que temos de fazer a nós mesmos, na nossa vocação – à desinstalação; porque corremos o risco de nos instalarmos, e quando aprofundamos as raízes é muito difícil sairmos e desenvolvermos esse desprendimento interior que é indispensável.

RF: A vocação missionária exige que o missionário seja um nómada e que a sua casa se assemelhe a uma tenda, para andar leve?

AA: Sim. Um dos grandes modelos de missionário foi São Paulo, um homem que não descansava, nem se acomodava. Procurava fundar comunidades, e quando as comunidades estavam fundadas, partia para outro lugar. Era um peregrino permanente, mas um peregrino não superficial; um peregrino que aprofundava e tinha um objetivo. O missionário tem de ter esse objetivo. O missionário nunca pode ser superficial, tem de beber do sumo da interioridade.

RF: Que SMBN encontrou, em 2014, e quais os maiores desafios do primeiro mandato?

AA: O maior desafio, no início, foi tentar conhecer os membros e as situações. Por isso, estando ainda no Japão durante esses oito meses, aproveitei também para visitar as nossas regiões missionárias. Propus a mim mesmo falar pessoalmente com cada um dos membros, porque queria conhecê-los. E também queria que os membros me conhecessem. Portanto, quis falar com cada um dos membros, inteirar-me das situações, das dificuldades, dos problemas, também das alegrias e da história da Sociedade Missionária, que se faz através dos seus membros. Esse foi o maior desafio, e também a parte mais fascinante: conhecer a riqueza de cada um dos membros. Costumo dizer que nós somos como livros, e cada um tem uma riqueza imensa, da qual muitas vezes não nos damos conta ou até depreciamos.

RF: Foi difícil deixar o Japão numa altura em que, porventura, mais facilmente teria algum “sucesso” apostólico?

AA: Foi terrivelmente difícil! Em algumas entrevistas, uma pergunta que me colocavam era invariavelmente: “Esteve no Japão como missionário e agora está aqui em Portugal. Onde é que está o seu coração?”. Quem me entrevistava estava à espera de que eu dissesse: “O meu coração está no Japão”. Não! O meu coração esteve sempre comigo. A partir do momento em que assumi a função de superior-geral, que me custou imenso, assumi a cem por cento.

RF: Muitas vezes corremos o risco de ficar a pensar naquilo que perdemos, ao ponto de sermos incapazes de ver aquilo que Deus nos está a dar e que devemos acolher.

Quando foi eleito superior-geral pela primeira vez, em 2014, o padre Adelino Ascenso encontrava-se no Japão, desde 1998. Na foto, com um grupo de peregrinos japoneses em Nagasaki.

AA: Exatamente. Pode chegar o momento em que só estamos bem onde não estamos. Onde estivemos e já não estamos. E isso é muito frustrante. Temos de concentrar-nos no momento atual, vivendo-o com toda a nossa energia – naturalmente com base no passado, porque sem história um povo não existe – e os olhos postos no horizonte, em direção ao futuro, porque se alguém fica preso ao passado, no que poderia ter feito, então, será uma frustração permanente.

RF: Em 2018, foi reeleito para o segundo mandato. Como encarou então a sua missão, não só como superior geral, mas também como missionário em Portugal?

AA: Em 2018, já tinha entrado um pouco na dinâmica da Igreja em Portugal. Entrei também na dinâmica dos IMAG (Institutos Missionários Ad Gentes) e fui eleito presidente na primeira Assembleia em que participei. Isso foi muito bom para mim, para começar a perceber um pouco do que é a Igreja em Portugal, as suas dificuldades e os seus sonhos também. Então, fiquei, continuei a assumir as funções de superior-geral da SMBN e, de forma mais abrangente, do conjunto dos institutos missionários e, depois, também dos institutos religiosos e sociedades de vida apostólica (CIRP).

De Francisco a Leão XIV: Igreja sinodal missionária e misericordiosa

RF: À semelhança do Papa Francisco, também foram buscar o padre Adelino para superior-geral ao “fim do mundo”. Como vê o contributo do Papa argentino para a missão? Os processos por ele iniciados, na sua opinião, serão continuados e darão fruto? Mormente o dinamismo rumo a uma Igreja sinodal missionária?

AA: Um contributo incontornável. O Papa Francisco marcou a Igreja de forma indelével. Marcou a Igreja ad intra e marcou a Igreja ad extra. Pela sua forma espontânea e ao mesmo tempo profunda e poética, ele atraiu muita gente que estava desiludida com a Igreja. Atraiu muita gente que nunca tinha ouvido falar da Igreja. Pode dizer se que foi uma rajada de vento. Não digo uma lufada de ar fresco, não. Foi uma rajada de vento que passou pela Igreja. Penso que os seus projetos continuarão. A sinodalidade é algo que já está de forma natural em diversos grupos, institutos e porções da Igreja, do povo de Deus. Também há naturalmente algumas resistências. Mesmo que sejam em número quase irrisório, normalmente fazem muito barulho. Ele teve resistências terríveis, mas o testemunho dele prosseguirá. Não há como voltar atrás!

RF: Qual o contributo específico dos institutos missionários ad gentes para a conversão sinodal missionária da Igreja?

AA: Os institutos pela sua natureza estão mais abertos à sinodalidade porque trabalham mais em comunidade, em pequenos grupos. Os institutos missionários e os institutos religiosos estão, por isso, mais abertos. Podem e devem contribuir para uma maior, entre aspas, democratização da Igreja.

RF: Democratização no sentido de que a voz de todos seja escutada e tida em conta. Onde todos contribuam. É isso?

AA: É isso. Uma Igreja mais circular e menos piramidal. Aliás, a Igreja do Vaticano II não pode ser piramidal. Ultimamente têm surgido algumas correntes que procuram voltar à dimensão piramidal da Igreja e isso é algo que temos de tentar evitar, porque a Igreja não pode ser piramidal. A Igreja tem de ser esse povo de Deus a caminho, ombro a ombro, numa dimensão circular.

RF: Como vê o primeiro ano do pontificado de Leão XIV e qual o papel da espiritualidade nesta conversão da Igreja?

AA: Vejo com esperança. Trata-se de um missionário, com experiência missionária, membro de um instituto religioso, portanto, com uma visão bastante abrangente. Foi superior-geral e, como tal, visitou os seus confrades em muitos países e teve contato com muitas culturas. É natural de um país que, neste momento, está a fazer fraca figura no que diz respeito à democracia, mas viveu num país pobre, o Peru, como missionário.

RF: E é cidadão peruano também.

AA: Depois, a escolha do seu nome mostra que lutará pela paz, uma paz desarmada e desarmante. É discreto, mas com convicções firmes. Parece-me alguém de grande interioridade e, como dizia, de paz e reconciliação. Portanto, vejo este pontificado com bastante esperança, que seguirá, por aquilo que temos visto, na linha do Papa Francisco. Penso que, com a sua personalidade, interioridade, sede de paz, experiência missionária, visão abrangente, será um contributo muito bom para a Igreja e para o mundo.

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